Mulheres são menos de 15% em startups brasileiras
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quinta-feira, 07 de março de 2019
Mie Francine Chiba<br>Reportagem Local 

Na semana do Dia da Mulher, um dado revela que ainda há muito que caminhar para aumentar a presença feminina no empreendedorismo inovador. A participação feminina nas 10.228 startups cadastradas na ABStartups (Associação Brasileira de Startups), é de apenas 14,52%, contra 85,48% de participação masculina. Apenas 15,66% das empresas da entidade atingiram igualdade de gênero dentro de sua equipe.
Na visão da vice-presidente da ABStartups, Tânia Gomes, os números são uma réplica do mundo em que vivemos. "O nosso ecossistema de startups é um reflexo do mundo em que vivemos, se considerarmos que a participação feminina nos cargos de liderança ou no staff mais elevado é pequena." Segundo ela, a participação feminina nas startups brasileiras não está abaixo da média mundial, que é de cerca de 6%.
"A gente tem feito esforços, existe um forte movimento no Brasil, mas ainda é uma questão cultural." Para Gomes, startups são um negócio de risco e mulheres não foram educadas para assumir riscos. Também não foram ensinadas a fazer networking - se a mulher entregar um cartão de visitas a um homem, será que ela pode ser mal interpretada?
Mulheres também têm dificuldades de fazer captação de investimentos, relata Gomes. Uma pesquisa realizada pela BCG (Boston Consulting Group) revelou que, quando mulheres apresentam suas ideias a investidores em busca de capital inicial para seus negócios, elas recebem significantemente menos que os homens - uma diferença que ultrapassa o valor de US$ 1 milhão. Em compensação, negócios fundados por mulheres geram mais receita - mais que o dobro por dólar - que aqueles gerados por homens. "Quando se vai fazer captação de investimento, a pergunta mais dirigida às mulheres é como vai ser a manutenção do negócio. Para os homens, é quanto eles vão conseguir escalar", critica a vice-presidente da ABStartups. A falta de investimento em negócios com líderes mulheres faz com que a participação feminina nas startups seja ainda menor.
Para Gomes, mudar o cenário requer que o ecossistema de startups, como um todo, entenda que a diversidade, não só de gênero, faz com que os negócios tenham mais sucesso. "De modo geral, empresas com diversidade de gênero podem ser até 20% mais produtivas." Afinal, mulheres representam mais de 50% da população, e uma empresa que quer vender um produto ou serviço em um momento ou outro terá de se dirigir a uma mulher como potencial cliente.
Inspiração
Um levantamento feito pelo Sebrae/PR Regional Norte com uma amostra de 60 startups atendidas pela instituição mostrou que apenas 25% possuem sócio-representantes mulheres. Na opinião de Lucas Ferreira, gestor estratégico de Startup do Sebrae/PR Regional Norte, a baixa participação de mulheres nas startups da região é reflexo do baixo índice de mulheres que se formam nas áreas de tecnologia. "Como as startups estão muito ligadas a profissionais de tecnologia, isso é um reflexo direto."
Das startups aceleradas na SRP Go, aceleradora da Sociedade Rural do Paraná, apenas duas tinham mulheres. Em um ambiente com presença predominantemente masculina, Natália Albieri, CEO da startup Milch, confessa que já pediu para seus sócios conversarem com clientes em seu lugar. Ela está à frente do negócio junto a mais quatro sócios. "Em algum momento cheguei até a pedir para meus sócios conversarem com clientes um pouco por receio do preconceito, que nunca sofri."
Danhara Gomes é empreendedora de startups e organizadora de eventos nas áreas de esportes e saúde, e conta que quando vai apresentar os seus negócios - geralmente em ambientes de homens mais velhos -, a primeira reação é de desconfiança. Depois que começa a falar, entretanto, essa reação vai embora, ela ressalva. Gomes é membro da RedFoot, comunidade de startups de Londrina, onde, segundo ela, há poucas mulheres atuantes. Em sua visão, o ambiente de startups não exclui as mulheres e é inclusive receptivo, mas a mudança cultural demora a acontecer e talvez por isso elas ainda tenham um certo medo de frequentar esse espaço.
Novo 'mindset'

O ambiente de startups não faz discriminação por gênero, opina Mariana Finco, co-founder da startup Café Nau e sócia da Kous9 Branding e Design. Naturalmente que, em determinadas áreas de atuação, como tecnologia, a presença masculina é maior. E como muitas startups se valem da tecnologia para tornar os negócios escaláveis e disruptivos, a presença feminina acaba diminuída, como mostram os dados da ABStartups. Mas, trata-se de um meio em que, para empreender, basta ter "competência e vontade de dar certo", diz Finco. E por serem formadas principalmente por pessoas mais jovens, em meio aos quais a presença da mulher já é vista como mais natural, as startups estão trazendo um novo "mindset" ao meio corporativo.
É só uma questão de sair da zona de conforto, opina a empreendedora Lavínia Rocha. Ela deve lançar em junho o Clube da Lavi, um aplicativo para a comunidade de empreendedoras criada no Facebook que conta com quase 5 mil mulheres. No aplicativo será possível encontrar uma lista de todas as prestadoras de serviços da comunidade e obter cupons de desconto para contratar serviços das empreendedoras. Iniciativas que incluam as mulheres, que mostrem que elas podem, na opinião de Rocha, é uma maneira de aumentar a participação feminina nas startups. Dar visibilidade àquelas que já fazem parte desse ambiente também pode inspirar outras a participar. É por isso que, hoje, Natália Albieri, da Milch, conta que prefere se expor do que evitar determinadas situações relacionadas à startup. "Mais mulheres se sobressaindo servem de exemplo para as demais. O que me faz continuar, não desistir, é que preciso servir de exemplo."



