Mulheres da periferia abrem cooperativa de trabalho
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domingo, 11 de fevereiro de 2001
Cláudia Lopes De Londrina 
Uma iniciativa do curso de Estilismo e Moda da Universidade Estadual de Londrina (UEL) e da última edição do Filo Festival Internacional de Londrina transformou a realidade de 15 mulheres que participam de uma associação no Jardim União da Vitória, considerado até há pouco tempo o bairro mais violento do município.
Até junho, elas pretendem abrir uma loja para comercializar a produção da marca própria Pedaço de Pano. Donas de casa, diaristas e empregadas domésticas, estas mulheres aprenderam a desenvolver produtos de moda e agora estão criando uma cooperativa de trabalho, que deve ser fundada em três meses.
A Associação de Mulheres A União Faz a Força transforma retalhos doados por indústrias e confecções londrinenses em peças de moda. São bolsas, cintos, roupas e colchas exclusivas. Todas as unidades produzidas até agora foram comercializadas, obtendo um faturamento de cerca de R$ 2 mil.
Apesar de ainda não ter gerado grandes lucros, o projeto despertou o interesse de confecções como a Rosa Chá, de São Paulo. A Overloque, de Londrina, pretende fazer parcerias com a Pedaço de Pano, a exemplo da M.Officer, que utiliza criações da Cooparoca (ler matéria nesta página).
Por enquanto, os produtos confeccionados pela mulheres do União da Vitória estão sendo vendidos na loja da Overloque e em feiras e eventos alternativos. Cerca de 20% do total arrecadado é investido na realização de cursos gratuitos abertos à comunidade e que visam a formação de mão-de-obra. São promovidos três cursos por ano, com duração de quatro meses.
O oficina da marca Pedaço de Pano funciona no porão da casa da costureira Matilde Neves, de 51 anos. Aprendi a fazer muita coisa no projeto. Antes eu achava que colcha de retalhos era coisa de pobre. Agora, percebi que é chique.
Daqui a cinco anos a ex-doméstica Aparecida Alves da Silva, de 59 anos, quer ter dinheiro para comprar tudo o que desejar. Quero ficar por cima da carne seca, brincou. Resolvi nunca mais trabalhar para ninguém. Vou trabalhar para mim mesma.
Uma das primeiras realizações que pretende fazer depois que a cooperativa tornar-se rentável é terminar sua casa, de três cômodos, que começou a ser construída há 12 anos. A batalha diária de dona Aparecida não é fácil. Dos cinco filhos, apenas um está empregado. Um deles é cego e o marido é doente. Estou ganhando R$ 50 por mês na associação. É pouco mas ajuda.
A jovem Marta Gomes, de 26 anos, também resolveu deixar o emprego de doméstica para se dedicar a Pedaço de Pano. Desde maio passado, quando aconteceu o Filo, ela aprendeu a fazer fuxico e a costurar. Também estou fazendo um curso de macramé, contou Marta, que hoje retorna aos bancos escolares depois de oito anos. Estudei até o segundo colegial. Resolvi voltar à escola para ajudar na administração da cooperativa, disse.
Para a presidente da associação, Erineusa Tenório, uma das maiores conquistas obtidas até agora foi a aceitação das mulheres pela sociedade. Éramos discriminadas. Ao preenchermos uma ficha para emprego, éramos descartadas ao revelar nosso endereço. Hoje somos respeitadas e consideradas uma referência na cidade, afirmou. A Pedaço de Pano tem cinco máquinas de costura industrial mas precisa comprar outras três, que custam R$ 1,1 mil cada, segundo ela. Aceitamos doações de equipamentos, aviamentos e retalhos, lembrou. As doações podem ser feitas pelo telefone (0XX43) 322-1030.


