Em cinco anos, estima-se que a população idosa de Londrina irá crescer mais de 16%, saltando dos atuais 112.599 para 131.250 habitantes. Embora os dados do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística) apontem para uma desaceleração anual do crescimento demográfico no município, seguindo uma tendência nacional, o número de londrinenses acima dos 60 anos está em expansão, provocando uma mudança gradual no desenho da pirâmide etária. A base, formada pela população mais jovem, vai se estreitando enquanto ocorre o alargamento do topo, onde se concentram os mais velhos. O envelhecimento populacional associado ao aumento da expectativa de vida traz desafios ao poder público, mas também abre uma ampla gama de oportunidades para quem decide empreender, de olho no potencial de consumo dos 60+.

O Sebrae calcula que os idosos representam hoje 20% dos consumidores brasileiros. Chamada de economia prateada ou economia da longevidade, o mercado de produtos e serviços voltados a essa faixa etária movimenta, no país, cerca de R$ 2 trilhões ao ano. E a expectativa é de que a demanda dessa população cresça ainda mais. A análise dos dados estatísticos do município indica que até 2030, quase um quarto dos londrinenses terá mais de 60 anos de idade.

Fundada em Curitiba, em 2015, a clínica Anjos da Guarda Cuidadores de Idosos vem melhorando seus resultados ano a ano. Hoje, conta com 22 unidades espalhadas pelo país e nos últimos dois anos, houve crescimento de mais de 400% no faturamento, que ultrapassa os R$ 10 milhões anuais, com a perspectiva de seguir crescendo. Inicialmente voltada à oferta de profissionais especializados para famílias que não têm disponibilidade para cuidar de seus idosos, a empresa ampliou a sua área de atuação, com cursos de formação e qualificação de novos trabalhadores, embora o forte ainda seja o home care. O sócio das filiais londrinense e maringaense da empresa, Roberto Carlos Santos Rulka, reconhece que é um serviço não acessível para a maioria da população, mas ainda assim, projeta um bom avanço nos resultados. “A gente viu um nicho. A população está envelhecendo e as pessoas não têm tempo de cuidar dos idosos. O cliente também não quer ter vínculo trabalhista com os profissionais pelo alto custo do registro profissional, com os encargos sociais, e pelo risco de processos trabalhistas.”

As unidades sob a gestão de Rulka atendem 150 famílias que contratam planos mensais que custam a partir de R$ 6 mil, podendo chegar a R$ 13 mil, dependendo da carga horária e do número de dias na semana. “Nosso foco é o cliente classe A. O público classe C pode contratar o atendimento para acompanhante no hospital, algum serviço mais esporádico, na classe B, muitas vezes as famílias se cotizam para pagar o serviço, mas o foco é mesmo o público classe A.”

Na Padrão Enfermagem, uma rede de franquias de serviço de home care, cerca de 80% dos atendimentos são voltados para o público acima dos 60 anos e essa participação deve aumentar ainda mais. “O setor de saúde para idosos só tende a crescer nos próximos anos, e quem investe nele agora está olhando para um futuro cada vez mais promissor”, disse o CEO e fundador da empresa, Rafael Schinoff. “Diante de um processo de envelhecimento populacional acelerado, a demanda por residenciais sênior de alta qualidade crescerá totalmente nos próximos dez e 15 anos, com uma maior exigência pelo bem-estar e humanização”, comentou o fundador da 3i Residencial Sênior, Fábio Alves, que projeta faturamento de R$ 10 milhões em 2025 nas unidades de São Paulo e Recife.

Mas se engana quem pensa que nicho rentável quando se fala na população 60+ é somente o da saúde, ou da falta dela. Quem investe na estética e na qualidade de vida, com clínicas que oferecem procedimentos faciais e corporais e academias de ginástica, por exemplo, encontra nessa parcela da população um cliente fiel e disposto a gastar. Há mais de duas décadas atuando como professor de hidroginástica, Luciano Rodrigues de Melo, da academia Forma D’Água, em Londrina, tem percebido um aumento constante do número de idosos matriculados. “Além de estar aumentando, é um público muito fiel, o mais fiel na academia. Tenho alunos que estão aqui há 15 anos e esse movimento tem aumentado. Para atender a demanda, aumentamos a quantidade de horários, colocando mais aulas pela manhã e à tarde. Nas aulas de hidroginástica, 95% ou mais dos alunos são idosos”, comentou o professor. Além da hidroginástica, as aulas de natação e musculação também têm grande adesão desse público.

Além dos benefícios para a saúde física, Melo destaca os ganhos para a saúde mental dos idosos obtidos com a prática regular de exercícios. “Eles entenderam que os exercícios evitam problemas futuros e há muitos que vêm por recomendação médica. Mas também tem a parte da socialização, que melhora muito. Tem aluno que chega deprimido, sem conversar, e passa a ter uma convivência com outros alunos. Uma boa parte dessa turma vive sozinha e a partir da academia, começa a conviver, sai para tomar café e até viaja junto.”

Vice-presidente de Scale Up do Ecossistema 300 Franchising, Vinicius Barreto se diz um grande entusiasta da economia prateada, que segundo ele, foi impulsionada pela pandemia de Covid-19. “Houve grande movimento de aumento, principalmente no pós-pandemia, quando a população 60+ viu muitas pessoas próximas partindo. Houve uma mudança cultural. A geração anterior tinha muito o conceito de deixar patrimônio para os descendentes. Hoje, eles entendem que o grande patrimônio é a educação ofertada aos filhos e estão preocupados em aproveitar essa fase da vida.”

Serviços personalizados de cuidados para idosos lúcidos, sem nenhuma dificuldade de mobilidade ou comprometimento da autonomia, o segmento de turismo, com pacotes voltados especificamente para essa faixa etária, academias de ginástica, clínicas de estética e serviços voltados aos cuidados com os pets são alguns dos nichos que concentram excelentes oportunidades de negócios para quem busca vender ao público acima dos 60 anos.

Barreto também chama a atenção para os idosos empreendedores, que têm crescido. Muitos deles experimentam a sensação de tédio após alguns anos da aposentadoria e cheios de vitalidade para voltar ao mercado de trabalho, encontram no empreendedorismo uma forma de combater o etarismo no meio corporativo. Em 2023, o número de pessoas acima dos 60 anos que procuraram a 300 Franchising interessados em abrir um negócio próprio foi de 6% e, neste ano, deve chegar a 9,5%. “Para esse público, não posso oferecer algo pelo qual eles não tenham paixão. Não estão em uma fase da vida que carregam coisas que não estejam a fim de fazer. Eles têm que investir em coisas que fazem bem de forma natural”, orientou ele, que aposta em um aumento de 100% no número de empreendedores brasileiros acima dos 60 anos em dez anos. “O número dobra facilmente nos próximos dez anos e estou sendo conservador.”

Envelhecimento populacional é desafio na administração pública

Na esfera pública, o envelhecimento populacional representa um enorme desafio e torna urgente a adoção de políticas públicas voltadas a essa parcela da sociedade, especialmente entre os mais vulneráveis.

Em Londrina, a administração anterior e o governo estadual chegaram a anunciar, em 2021, a construção de um condomínio horizontal fechado para idosos com renda mensal de um a seis salários mínimos. Com 40 unidades habitacionais de 40 metros quadrados cada uma, o projeto seria construído no jardim Império do Sol (zona oeste), em parceria com a Cohapar (Companhia de Habitação do Paraná), por meio do programa Casa Fácil Paraná - Viver Mais. O investimento previsto era de R$ 5 milhões. A iniciativa, no entanto, foi abortada em razão de problemas com a doação do terreno.

Agora, o governo do Estado informou que aguarda a apresentação de uma nova área pelo município para dar seguimento ao projeto.

No Estado, segundo levantamento da Cohapar, já foram entregues e estão em funcionamento empreendimentos em quatro municípios: Prudentópolis, Cornélio Procópio, Foz do Iguaçu e Jaguariaíva. Em Arapongas, Ponta Grossa, Campo Mourão, Cascavel, Guarapuava, Francisco Beltrão, Irati e Telêmaco Borba as obras foram iniciadas.

Os condomínios construídos dentro do Programa Viver Mais contam com ambulatório, praça de convivência, biblioteca, academia ao ar livre, horta comunitária, salão de festas e quiosques de jogos.

A seleção dos beneficiários é feita entre os inscritos no cadastro de pretendentes da Cohapar com mais de 60 anos de idade. Têm prioridade os moradores de áreas de risco ou insalubres, pessoas com deficiência ou mobilidade reduzida e beneficiárias de programas de assistência social.(S.S.)

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