Mudança do câmbio causa 'inversão' no mercado de trabalho
Arquivo FolhaReviravoltaSetor de autopeças tende a contratar mais se as montadoras elevarem as exportações nos próximos meses A mudança cambial inverteu algumas tendências no Brasil. Setores que vinham desempregando há anos, como os de produtos agrícolas, autopeças e calçados, passam a criar postos de trabalho. Outros, que tiveram performance razoável nos últimos anos, devem demitir muito, como é o caso das administrações públicas, do comércio e dos serviços considerados adiáveis.
Na média, o desemprego no Brasil crescerá, em todos os prováveis cenários para a economia em 1999, por causa da recessão, segundo especialistas em trabalho e economistas. O mercado interno ainda é o carro-chefe do emprego.
A possibilidade de aumento das exportações vai suavizar esse quadro, mas economistas esperam impacto pequeno num primeiro momento. Isso porque as vendas externas respondem por menos de 10% do Produto Interno Bruto (PIB) e algumas cadeias produtivas que poderiam se beneficiar da mudança cambial estão muito debilitadas, como resultado de anos de vendas retraídas. A indústria, por exemplo, não vai recuperar-se de imediato.
Além disso, os dois principais índices de desemprego, o do IBGE (nacional) e do Dieese (regionais, a partir de convênios), são medidos em regiões metropolitanas e não captarão o crescimento do emprego na agricultura, setor que mais prontamente vai responder ao aumento súbito de seu poder de competir no mercado externo, por causa da desvalorização do real.
O presidente do Conselho Federal de Economia, Antônio Corrêa de Lacerda, prevê dois cenários no mundo do trabalho: um ruim e outro pior. Para ele, será inevitável o crescimento da desocupação, ainda que o segundo semestre seja melhor que o primeiro. No caso ruim, a queda do PIB ficará entre 2% e 3%, a inflação não será maior do que 10%, a taxa de juros nominais será menor do que 30% e o câmbio se estabilizará entre R$ 1,60 e R$ 1,70 por dólar. Nesse quadro o desemprego medido pelo IBGE ficará em torno de 10% da população economicamente ativa (PEA) no ano, em média, o que significa um avanço de cerca de dois pontos percentuais em relação à média do ano passado.
Mas Lacerda não ignora o risco de outro cenário, no qual o desemprego poderia chegar a até 13% da PEA, um recorde jamais imaginado, nem mesmo nas recessões pelas quais o País já passou. Para que isso ocorra, a queda do PIB deve ser de 4% a 5%, a inflação entre 15% e 20%, os juros nominais de 40% a 50% e o câmbio entre R$ 1,80 e R$ 1,90.
O diretor técnico do Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Sócio-Econômicos (Dieese), Sérgio Mendonça, afirma que, com certeza, o índice de desemprego da pesquisa Seade-Dieese baterá na casa dos 20% em algum momento desse primeiro semestre, ante uma média de 18,3% no ano passado na Grande São Paulo. Mas ele ainda não trabalha com expectativa de uma explosão na taxa - algo como um aumento do número de desempregados, hoje de 1,5 milhão na região metropolitana, para mais de 2 milhões.
Essas alterações não são mecânicas porque o índice depende do número de pessoas que vai para o mercado de trabalho, afirma. Num cenário de recessão, há uma parcela de trabalhadores, geralmente a faixa mais jovem, que se sente desmotivada e acaba retardando seu ingresso no mercado. Isso torna o índice de desemprego ainda mais preocupante: os atingidos que aparecerão nas pesquisas serão, em geral, pessoas impossibilitadas de sobreviver sem um posto de trabalho, como chefes de família, sejam homens ou mulheres.





