Mudança afeta menos pequeno poupador
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sexta-feira, 04 de maio de 2012
Nelson Bortolin <br> Reportagem local 
A diferença é pouca, mas já assustou o poupador. ''É mais uma regra para prejudicar o brasileiro'', diz o comerciante londrinense, José Marcos Gomes, 43 anos, a respeito das mudanças anunciadas para a caderneta de poupança na quinta-feira à noite. Há 30 anos, ele investe nesta modalidade por considerá-la segura e livre de impostos.
O alívio do comerciante é acreditar que não será prejudicado porque sua conta é anterior às novas regras. Mas não é bem assim. De fato, nada muda para o dinheiro depositado nas cadernetas até quinta-feira. Mas os novos depósitos, mesmo aqueles feitos em contas antigas, ficam sujeitos à alteração.
Desde ontem, os bancos são obrigados a separar os depósitos novos dos antigos em duas contas. O dinheiro antigo continua rendendo 6,17% ao ano mais TR. Mas os novos valores passarão a ter rendimento menor sempre que a taxa básica da economia, a Selic, estiver em 8,5% ao ano ou abaixo deste patamar. Atualmente, a taxa, que é definida pelo Conselho de Política Monetária (Compom), está em 9% ao ano.
Um valor de R$ 50 mil depositado até quinta-feira na poupança rende R$ 3.185 ao ano. E vai continuar assim. O mesmo rendimento vale para novos depósitos enquanto a Selic estiver acima de 8,5%. Mas quando a taxa básica chegar a esta porcentagem, o rendimento de novos R$ 50 mil depositados passarão a render R$ 3.085 ao ano, uma diferença de R$ 100.
Conforme afirma o governo, o objetivo da mudança não é afugentar os pequenos poupadores. Mas segurar um movimento que tem se tornado muito comum. Com as constantes quedas da Selic, os grandes investidores vêm deixando as aplicações de renda fixa, baseadas nos títulos da dívida pública, e migrando para a caderneta de poupança. No primeiro caso, há cobrança de imposto de renda. No segundo, não.
Segundo o ministro da Fazenda Guido Mantega, a mudança estimulará a redução do custo do crédito em geral. ''Minha expectativa é que os bancos, ao captarem poupança a um custo menor, poderão liberar empréstimos também a custos menores. Os bancos querem atrair clientes e, para isso, precisam reduzir o custo financeiro. Essa queda de parte da remuneração da poupança vai propiciar recursos para os bancos emprestarem a juros menores'', disse ele à Agência Estado.
O economista do Dieese do Paraná, Cid Cordeiro, lembra que o governo tinha outra opção para reduzir as taxas de juros, que seria baixar a carga tributária das aplicações financeiras. ''Mas nós entendemos que essa seria uma medida mais prejudicial para a sociedade uma vez que baixaria a arrecadação e afetaria os serviços públicos'', ressalta.
Para ele, o governo está certo porque há objetivos mais importantes para a sociedade, como o crescimento econômico, que a medida poderá ajudar a garantir.
Já o economista e professor da UEL Azenil Staviski pensa o contrário. ''O governo tem arrecadado muito nos últimos anos. Para evitar a migração dos investimentos para a poupança, o melhor seria baixar a carga (de 22,5% de imposto de renda) das aplicações'', afirma.
Ele lembra que os valores da poupança são destinados ao financiamento da habitação e do saneamento básico. ''O risco (ao desincentivar a poupança) é faltar recursos para esses serviços no futuro'', ressalta.
Para o presidente da Federação das Indústrias do Estado do Paraná (Fiep), Edson Campagnolo, a medida do governo não é só ''correta'', mas ''corajosa'' e ''coerente''. ''O governo tem se comprometido a combater o processo de desindustrialização do País. A mudança na poupança, ao propiciar mais crédito para investimentos, é bem coerente com esta postura'', considera.
Campagnolo diz, no entanto, que medidas que estimulam o consumo sempre podem ter reflexo sobre os preços. ''Esse é um alerta que precisa ser feito. Não podemos colocar em risco a estabilidade conquistada nos últimos anos. Não podemos deixar a inflação sair do controle'', declara.



