Carmem Murara
De Curitiba
O juiz da 3ª Vara da Justiça Federal, Luiz Antonio Bonat, começa a analisar hoje a denúncia de crime do colarinho branco contra o ex-presidente do Banestado, Carlos Antonio Almeida Ferreira, e mais oito ex-diretores da instituição financeira. A denúncia foi oferecida pelo Ministério Público Federal, que protocolou o pedido no último dia 25 de novembro. O Ministério Público acusa a antiga diretoria do banco de ter beneficiado um grupo de 19 empreiteiras, ao liberar o pagamento de juros e correção monetária de empréstimos contraídos no final da década de 80.
O pedido de abertura de processo criminal é relativo a maio de 1990, quando a diretoria do banco se reuniu e decidiu estornar os encargos devidos às empreiteiras. Os empréstimos liberados eram garantidos por notas promissórias e caução de papéis emitidos pelo Departamento de Estradas e Rodagem do Paraná (DER). As empreiteiras estavam com dificuldades de receber o dinheiro do Estado e por isso teriam recorrido ao banco.
Segundo relatório do Ministério Público, os contratos venciam em janeiro de 89, mas, em março, foram firmados novos contratos, que previam correção monetária com variação do Índice Geral de Preços (IGP), sem juros. Em junho, foram mudadas as regras e a correção passou a ser pelo BTNF (Bônus do Tesouro Nacional), mais 12% de juros ao ano.
As empreiteiras não honraram os pagamentos, segundo o Ministério Público, e houve prorrogação dos contratos. Os saldos devedores foram calculados como se não houvesse a inadimplência, o que gerou uma perda de receita para o banco de 11 milhões de Ufirs, equivalente a quase R$ 11 milhões, diz a Procuradoria. Os
valores representavam na época 62% do lucro do Banestado no semestre.
O caso só chamou atenção do Banco Central em 96, quando o Ministério Público foi acionado. O processo tem seis volumes e em sua conclusão há o pedido abertura de processo criminal por gestão fraudulenta de bancos, o que se caracteriza como crime contra o sistema financeiro nacional.
A diretoria envolvida no processo se defende. A Folha ouviu um dos denunciados, o ex-vice-presidente de Administração, Walter Senhorinho. ‘‘Eu era do Conselho de Administração mas não me lembro desta operação. Os empréstimos sempre foram feitos às empreiteiras, mas não deixávamos de cobrar as correções monetárias ou juros em caso de atraso’’, defendeu-se.
A Folha não conseguiu localizar o ex-presidente do banco. Os demais ex-diretores denunciados são Armando Flat, Irineo Zanatti, José Pio Martins, José Tarcizo Falcão, Palo Telck Schawartz, Pedro Geraldo e Valmor Picolo.

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