Morre o economista Carlos Lessa, ex-presidente do BNDES, de Covid-19


NICOLA PAMPLONA
NICOLA PAMPLONA

RIO DE JANEIRO, RJ (FOLHAPRESS) - Morreu nesta sexta-feira (5), aos 83 anos, o economista Carlos Lessa, que foi presidente do BNDES (Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social) e reitor da UFRJ (Universidade Federal do Rio de Janeiro). Ele havia sido internado no início da semana com Covid-19.

Lessa lutava contra problemas pulmonares desde meados do ano passado, quando chegou a ser internado por uma pneumonia. Nos últimos meses realizava o tratamento em casa, mas foi internado novamente na terça (2) após contaminação pelo novo coronavírus.



"A tristeza é enorme. Seu último ano de vida foi de muito sofrimento e provação", escreveu em uma rede social seu filho Rodrigo Lessa. "O legado que ele deixou não foi pequeno. Foi um exemplo de amor incondicional pelo Brasil, coerência e honestidade intelectual."

Carioca, Lessa se formou em economia pela antiga Universidade do Brasil, que depois se tornou UFRJ, fez mestrado em Análise Econômica pelo Conselho Nacional de Economia e doutorado em Ciências Humanas pela Unicamp.

Como acadêmico, era uma referência da corrente desenvolvimentista do pensamento econômico, lembra em nota o Instituto da Brasilidade, projeto ao qual Lessa se dedicava nos últimos anos em parceria com o amigo Darc Costa.

Escreveu diversos livros sobre economia, entre eles "Introdução à economia, uma aborgagem estruturalista", sua obra mais conhecida, em parceria com Antônio Barros de Castro. Em 2000, lançou também um olhar sobre os problemas e desafios de sua cidade natal em "O Rio de todos os Brasis".

Foi professor no Instituto Rio Branco do Itamaraty, ministrou cursos em instituições como a Cepal (Comissão Econômica para a América Latina e Caribe), a Universidade do Chile, a Unicamp e a Faculdade de Economia da Universidade Federal Fluminense.

"Foi um professor brilhante, criativo, instigante e generoso, que formou muitas gerações de alunos", diz o economista Luciano Coutinho, que presidiu o BNDES no governo Dilma Rousseff. "Foi também um homem público, sempre fiel ao interesse público, e que lutou as boas causas."

Ex-aluna de Lessa na UFRJ, a economista Laura Carvalho conta que suas aulas atraíam gente de fora da faculdade. "Gente que ia ao campus só para assistir suas aulas. Lessa entendia a economia a partir da história, da cultura, do povo brasileiro", recorda.

"Suas análises sobre a economia do Rio de Janeiro e suas relações com o ilícito e a cultura popular desde os primórdios são de uma riqueza e de uma originalidade ímpar", diz ela. "Tinha horror das desigualdades, mas tinha grande otimismo com o poder transformador e a auto-estima dos brasileiros."

Em 2002, Lessa foi nomeado reitor da UFRJ com apoio de 85% da comunidade universitária. A universidade declarou luto oficial de três dias. "O Brasil perde um grande brasileiro, com B maiúsculo. Ainda que tenha ficado no posto por apenas seis meses, deixou uma lembrança cultural incomensurável à Universidade do Brasil". Quando esteve na reitoria, fundou o bloco carnavalesco Minerva Assanhada.

Filiado ao MDB, sigla que viria a se tornar o PMDB, Lessa teve passagens por cargos públicos em diferentes governos e atuou também em campanhas políticas como as do ex-governador do Rio Anthony Garotinho e do hoje deputado federal Marcelo Freixo (PSOL), quando concorreu à prefeitura do Rio.

Em redes sociais, Freixo disse nesta sexta que Lessa era "um homem de espírito público apaixonado pelo Rio de Janeiro e pelo Brasil".

Lessa assumiu o BNDES logo no início do governo Lula, em 2003, sob indicação dos economistas Celso Furtado e Maria da Conceição Tavares. No governo, era parte da chamada ala "desenvolvimentista" e teve uma série de desentendimentos com ministros da área econômica, como Antônio Palocci (Fazenda) e Luiz Fernando Furlan (Desenvolvimento).

Em sua gestão, o BNDES protagonizou uma disputa bilionária com a gigante americana AES, que era dona da Eletropaulo. Após calote da americana em dívida assumida na privatização da empresa, o banco acabou se tornando sócio da distribuidora.

Lessa foi demitido do do banco estatal de fomento em novembro de 2004, após dizer à Folha de S.Paulo que a gestão do então presidente do Banco Central, Henrique Meirelles, era um "pesadelo". Na época, os dois divergiam com relação ao valor da extinta TJLP (Taxa de Juros de Longo Prazo), que indexava os contratos do banco.

"Estou absolutamente convencido de que o presidente do Banco Central faz parte de uma articulação para desmontar o BNDES. Não sei se ele é o financiador da orquestra, mas ele é o regente" , afirmou na entrevista, que foi considerada pelo governo Lula como a gota d'água para sua substituição no comando do banco.

Em nota, o ex-presidente Lula disse que "seu trabalho, inteligência e patriotismo foram fundamentais para o banco retomar sua função de fomentar o desenvolvimento nacional". "O país perde hoje um grande brasileiro. Mas seu exemplo, suas ideias e suas lições permanecem, para aprendermos e nos inspirarmos para a construção de dias mais felizes", afirmou.

Após sua passagem pelo banco, Lessa decidiu investir na cidade em que nasceu, restaurando casarões antigos para transformá-los em restaurantes ou casa de shows. Com Costa, que foi seu braço direito no BNDES, fundou o Instituto da Brasilidade, para debater o desenvolvimento do país.

"Ultimamente, mesmo acamado, Lessa recebia — até a eclosão da pandemia — nossos integrantes, que com ele se aconselhavam e debatiam os acontecimentos nacionais e internacionais", disse o instituto. "Na manhã desta sexta-feira, a Covid-19 levou nosso amigo. Mas não levou sua inspiração, a força de suas palavras e de seus sonhos, que agora caberão a todos nós."



Carlos Lessa deixa mulher, três filhos e netos.

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