''Moratória argentina é quase inevitável''
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domingo, 02 de setembro de 2001
Lúcio Flávio Moura<br>De Londrina 
O ex-presidente do Banco Central hoje um dos principais consultores econômicos do país esteve em Londrina semana passada para uma palestra sobre conjuntura econômica, a convite do Banco BBV, Grupo Promotor do Desenvolvimento Regional e Associação Brasileira de Treinamento e Desenvolvimento PR. Entre estudantes, empresários e economistas, cerca de 800 pessoas participaram do evento. Confira abaixo, principais trechos de entrevista exclusiva concedida à Folha.
Folha O que se pode esperar agora da economia argentina, socorrida pelo FMI?
Loyola Este dinheiro vai pouco adiantar para a Argentina. Ficou muito claro nesta última semana que o auxílio foi muito discutido, principalmente pela posição do Tesouro norte-americano, que teve ásperas discussões com a missão argentina e com o FMI. Isto mostra que foi uma ajuda a contragosto, que acaba expondo a desconfiança internacional em relação ao futuro do país e abalando os esforços de recuperação de credibilidade.
Folha O pacote do FMI pode ajudar na renegociação da dívida externa argentina?
Loyola Na verdade, parte dos recursos está destinado a viabilizar uma negociação com os bancos privados. O problema é que ainda não se sabe como isto será feito, o que gera temor de perdas. É gerada insegurança ao invés de confiança. Além disso, não serão US$ 5 bilhões que recuperarão a imagem da Argentina. É necessário um investimento mais maciço talvez um empréstimo três vezes maior e um comprometimento mais forte por parte do FMI. Mesmo assim, talvez nem estas medidas seriam sufientes. A situação argentina é precária.
Folha Há clima para moratória?
Loyola A moratória argentina é praticamente inevitável. Pode ser uma moratória educada, com os bancos credores reduzindo os valores e reestruturando prazos. Ou se dará de uma forma menos educada, que surgirá da falta de capacidade de pagamento.
Folha E para desvalorização do peso?
Loyola É uma possibilidade, mas a Argentina protelará até quando puder esta decisão. Primeiro, recorrerão a moratória ou a renegociação da dívida. Eles terão de partir para a flutuação de câmbio e as consequências seriam gravíssimas, principalmente para o mercado financeiro. Há uma grande proporção da dívida em dólar, inclusive financiamentos habitacionais. Os efeitos seriam muito mais graves lá do que quando ocorreu o mesmo processo no Brasil.
Folha Como o Brasil está se comportando diante da crise do país vizinho?
Loyola Nossas relações com o FMI são melhores e a atuação do Banco Central com relação à política de juros vem sendo adequada. Não há espaço para redução das taxas porque o mercado poderia interpretar como um relaxamento do Banco Central na questão inflacionária. Mas, também não há necessidade de aumento dos juros. A hora é de esperar o desfecho da crise argentina.
Folha Esta política não está nos levando à recessão?
Loyola Não há recessão. Estamos em um período de baixo crescimento. Em 2001, o crescimento do Produto Interno Bruto deve ficar em torno de 2%. Vínhamos de um crescimento acelerado e sofremos uma freada brusca com o anúncio da crise energética. Os empresários cortaram investimentos e o mercado ficou pessimista. Mas não há duvída de que o aumento dos juros é um fator importante na retração econômica.
Folha Acionistas do Bamerindus conseguiram autorização para abrir a ''caixa preta'' da intervenção no banco. Acha que isso pode reverter medidas tomadas à época, quando o controle do banco foi transferido para o grupo inglês HSBC?
Loyola Não acredito. Acho positivo que os acionistas estejam procurando seus direitos. Evidentemente, que o Proer teve mais preocupação com os correntistas do que com os acionistas, que são, por definição, investidores de risco. Os fatores que levaram à intervenção são muito claros e os objetivos do Proer também. Não acredito que os interventores prejudicariam os acionistas, até porque o Banco Central também seria prejudicado.


