Rio - A classe média excedeu os limites de bairros tradicionalmente tidos como redutos da população ''remediada'' e subiu os morros e favelas cariocas. Pelos critérios divulgados na última semana pela Fundação Getúlio Vargas (FGV), boa parte da população dessas localidades pode ser classificada como classe média.
O parâmetro, no entanto, cria divergências entre os próprios moradores. ''Se eu faço parte de alguma classe, é a dos pé-rapados'', diz, categórico, o eletricista Renaldo Dias de Jesus, morador da Favela Tavares Bastos. ''Eu me considero de classe média'', garante, com o mesmo tom enfático, a dona de casa Ana Paula Pereira, na Rocinha. Ambos têm rendimentos familiares semelhantes.
Em vez de ruas largas e arborizadas, esse contingente da ''nova classe média brasileira'' se amontoa em vias apertadas, com coleta de lixo deficiente e saneamento precário. Não é difícil encontrar exemplos de inclusão dos emergentes nas ruas da mais famosa favela da América Latina, a Rocinha.
A comunidade, que tem status de bairro, está repleta de famílias que passam o mês com renda igual ou pouco superior a R$ 1.064, o piso mensal determinado pela FGV que separa a nova categoria da pobreza. Não é à toa que a favela já abriga três redes diferentes de bancos, financeiras, academias de ginástica e escolas particulares.
A família de Ana Paula, de 28 anos, administra, no apartamento recém-comprado no bairro, renda em torno de R$ 1,5 mil. A casa, com sala e três quartos, tem vista para o Cristo Redentor e a Praia de São Conrado, abriga três aparelhos de TV, computador, fogão e geladeira. Na garagem, Ana Paula guarda um carro e uma moto.
''Eu me considero de classe média. Tenho casa própria, carro, computador e meu filho estuda em colégio particular'', resume. Seu marido, Fábio Pereira, é chefe de manutenção da construção civil, um degrau acima de mestre-de-obras. Juntos, eles economizaram R$ 35 mil, por oito anos, para comprar o imóvel em que vivem há um mês. ''Acho que vivo com conforto'', diz ela.

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