Duas das montadoras que irão se instalar na Região Metropolitana de Curitiba, a Chrysler e a Audi, devem adotar um novo conceito de linha de montagem, o sistema modular, com um número reduzido de fornecedores. Em vez de entregar autopeças, eles vão fornecer partes completas do veículo.
A Chrysler já definiu um desses fornecedores, a Dana, que será responsável por todo o chassi do pickup Dakota, ou um terço do veículo. A Dana terá duas fábricas em Curitiba: uma para a Volvo e outra para a Chrysler. Outro possível fornecedor da Chrysler é a fabricante de motores Detroit Diesel, dos EUA, que deve se instalar no Brasil.
A Volkswagen, de quem a Audi é subsidiária, reivindica a paternidade do novo conceito, que denomina ‘‘consórcio modular’’. Em sua nova fábrica de caminhões e ônibus em Resende (RJ), totalmente automatizada, ela trabalha com apenas oito fornecedores. Por enquanto ainda não estão definidos quem serão os fornecedores da fábrica da Audi, informa a assessoria de imprensa da Volkswagen.
A Renault já definiu que trabalhará com terceirização máxima, informa Andreas Gabriel, diretor de compras. ‘‘O conceito modular não está sendo colocado em discussão’’, diz. A empresa não o considera ‘‘palpável a ponto de fazer uma discussão sobre o assunto’’. A Renault ainda não fechou a relação de seus futuros fornecedores, mas deve manter em volta de suas fábricas cerca de 20 a 25 fornecedores de peças que, por questões de logística e de volume, entende que não convém trazer de fora, como assentos e painéis. Das três, é a que mais deve gerar empregas indiretos no Paraná.
No sistema modular, os próprios fornecedores terão seus subfornecedores que, no caso da Dana, são empresas do próprio grupo, já instaladas em outros Estados. Além disso, a automação nas montadoras e nos seus fornecedores reduz postos de trabalho. Isto significa que dificilmente se repetirá no Paraná um caso como o da Fiat, que levou para Minas Gerais mais de duas centenas de indústrias de autopeças.
Volks Muitas decisões sobre a futura fábrica da Volkswagen no Paraná ainda serão tomadas no próximo semestre, de acordo com a sua assessoria de imprensa. O consórcio modular, no entanto, já é seu modo de atuação futura. Ele foi idealizado por José Ignácio López de Arriortúa, presidente do Conselho de Administração da Volkswagen do Brasil e da Argentina e é considerado inédito em todo o mundo.
Nele, cabe aos fornecedores a montagem de conjuntos completos, enquanto a montadora se concentra na parte de logística, engenharia de produtos, garantia do processo e da qualidade e atendimento ao cliente. Como vantagens, a empresa reduz custos, investimentos, estoques e tempo de produção de veículos, ganhando na produtividade e flexibilidade.
Na fábrica de Resende, onde pela primeira vez o conceito ganhou forma, a Cummins e a MWM são responsáveis pelos motores dos caminhões e ônibus; a Iochpe-Maxion, pelos chassis; a Rockwell, pelos eixos de suspensão; a Tamet, pela armação das cabinas; a Eisenmann, pela pintura; a Remons, por rodas e pneus e a VDO, pela tapeçaria. O transporte dos materiais ficou a cargo da Union Manten e da CRTS.
Chrysler Se a Volkswagen conseguiu fazer uma fábrica com oito fornecedores, a Chrysler pode ter ainda menos. A Dana também anuncia um sistema inédito, que ‘‘ultrapassará os limites do tradicional fornecimento de componentes ou sistemas até hoje visto na indústria automobilística mundial’’, segundo sua assessoria de imprensa.
Luciano Pires, gerente de Marketing da Dana, chama o seu sistema de chassis rodante, composto de rodas, freio, suspensão e eixo. ‘‘Ficam faltando apenas os pneus, motor, câmbio e carroceria’’, explica Pires. Ou seja, a Chrysler pode, em tese, se limitar a cinco fornecedores.
A Dana Corporation, nos EUA, desenvolveu o sistema na década de 80, fornecendo conjuntos completos de chassis para a linha de caminhões pesados da Mack Tucks Inc. A empresa tinha 500 fornecedores de componentes para chassis, que foram reduzidos para um, a Dana.
No Paraná, ela pretende demonstrar sua capacidade de produção para veículos comerciais leves. ‘‘Nunca ninguém forneceu um conjunto tão grande para uma montadora’’, reforça Pires.
Dana A empresa não definiu ainda o local da fábrica que fornecerá para a Chrysler, no Paraná. Sabe-se apenas que será próximo à montadora, com produção prevista para 1998. Também não está divulgando valores do investimento e empregos que serão gerados. Sua segunda fábrica no Paraná, que será fornecedora da Volvo, já está sendo montada num galpão industrial, adianta Pires.
A Dana Corporation é líder mundial no desenvolvimento, fabricação e distribuição de componentes e sistemas para os segmentos veicular, industrial e fora da estrada. Opera em 29 países, com 45 mil trabalhadores e 38 centros de desenvolvimento tecnológico. Seu faturamento em 1995 foi de US$ 7,6 bilhões, US$ 1 bilhão a mais que no ano anterior.
Ela está no Brasil desde 1957, quando adquiriu parte da Albarus, uma empresa brasileira que havia sido criada dez anos antes. Para este ano a Dana-Albarus projeta um faturamento de US$ 500 milhões, 16% superior ao de 1995.
A Dana tem 4 mil trabalhadores no Brasil, número que já foi de 4.800 há cinco anos, admite Pires. ‘‘A empresa investiu em informatização, equipamentos e infra-estrutura e o número necessário para executar funções diminuiu.’’ As duas novas fábricas do Paraná também não devem empregar muita gente, atuando mais como submontadoras. A Dana produz eixos cardan, embreagens pesadas, peças de borracha e anéis de pistão na sua subsidiária Albarus SA, em Gravataí (RS). Outra subsidiária, a ATH-Albarus Transmissões Homocinéticas, com operações em Porto Alegre e Charqueadas, fabrica semi-eixos homocinéticos e seus componentes, abastecendo 70% da indústria automobilística no País. Sistemas hidráulicos são produzidos na unidade de Cachoeirinha (RS).
Desde 1993 a Dana Corporation comprou ou fez joint ventures com 24 empresas, 20 das quais fora dos EUA, envolvendo 18 países em cinco continentes. A estratégia da empresa é obter no futuro 50% de seu faturamento fora dos EUA. Para a virada do século, o faturamento projetado é de US$ 10 bilhões.
Os objetivos de expansão da Dana casam-se com os de concentração da Chrysler. A montadora trabalha com o conceito de ‘‘empresa ampliada ’’ (extended enterprise), que significa trazer diversos de seus fornecedores nos EUA para os novos empreendimentos no Mercosul.
O primeiro que virá para cá, dentro deste conceito, é a Detroit Diesel Corporation, fabricante de motores que fornecerá o motor Diesel VM Turbotronic para o modelo Dakota, a ser produzido no Paraná, e o Jeep Cherokee, previsto para ser fabricado na Argentina.
Entre as empresas brasileiras, a Chrysler - de acordo com sua assessoria - está desenvolvendo parcerias com a Metagal (espelho retrovisor), Varga (freios), Rockwell-Fumagalli e Cofap (amortecedores), que também podem vir a fornecer para a fábrica do Paraná.

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