As montadoras vêm registrando déficit em sua balança comercial há seis anos consecutivos e não há indicações de que essa situação será alterada. O setor terá crescimento de 8% a 10% nas exportações deste ano, mas o volume maior de importação de peças, principalmente para os modelos recentemente lançados, deve eliminar qualquer possibilidade de superávit comercial.
O presidente da Associação Nacional dos Fabricantes de Veículos Automotores (Anfavea), José Carlos Pinheiro Neto, não divulga a previsão de importações, mas avisa que, num mercado globalizado e competitivo, as empresas buscam produtos com preço menor, qualidade melhor e serviço de entrega eficiente. Mas ressalta que, em muitos casos, a importação é a única saída porque vários produtos não são fabricados no País.
No ano passado as montadoras exportaram o equivalente a US$ 3,58 bilhões e importaram US$ 4,35 bilhões. Foram responsáveis por 7,5% de todas as exportações brasileiras e, na mão inversa, por 8,9% das importações. Neste ano, até setembro, o setor respondeu por 6,9% das vendas externas brasileiras.
Estudo do Sindicato Nacional dos Fabricantes de Autopeças (Sindipeças) mostra que um carro produzido no Brasil hoje tem 43% de conteúdo importado e 57% de nacional. Há cinco anos, os porcentuais eram de 25,6% e 74,4%, respectivamente. Entre os itens mais importados estão peças de carrocerias, como partes de portas e capôs mais usados nos carros novos, os chamados de mundiais por serem similares aos produzidos em outros países.
A produção local desses itens exigiria altos investimentos em equipamentos de prensa e ferramentais e, segundo as empresas, ainda não há escala que justifique esses gastos. A importação é maior nas montadoras conhecidas como ‘‘new comers’’, instaladas no País a partir de 1997. Elas receberam incentivos fiscais e se comprometeram a operar com pelo menos 60% de índice de nacionalização. Algumas informam já terem ultrapassado esse porcentual, mas segundo o Sindipeças, a conta inclui mão-de-obra e gastos com publicidade.
Entre janeiro e setembro desse ano, as importações de autopeças da França cresceram 60% na comparação com igual período do ano passado. É um indicativo de que a Renault, que já está produzindo dois modelos no País, está precisando se abastecer no país de origem. As compras do Japão aumentaram 31% e é de lá que chegam vários componentes usados pela Honda e Toyota nos modelos Civic e Corolla. Os Estados Unidos e a Alemanha venderam 27% e 17% a mais para as empresas locais. Parte desse crescimento também está relacionada com o aumento da produção, que deve ser de 20% a 23% nesse ano.
As montadoras não gostam de divulgar sua balança comercial. Uma única exceção, a Fiat, informou que deve exportar neste ano US$ 800 milhões e importar metade disso. As importações de peças da Itália, onde está a matriz da empresa, caíram 37% nos nove primeiros meses de 2000.
A importação também é feita por fabricantes de autopeças, em maior quantidade por multinacionais instaladas recentemente no País incluídas no seleto grupo de fornecedores mundiais, que vão aonde a montadora vai e se credenciam como fornecedoras de várias fábricas dos grupos. O setor de autopeças deve ter um superávit de US$ 200 milhões neste ano, segundo prevê o Sindipeças. No começo do ano, as contas apontavam para US$ 400 milhões, mas o valor teve de ser revisto para baixo há alguns meses.
Pinheiro Neto explica que os déficits registrados pelas montadoras a partir de 1995 coincidem com a abertura do mercado e, depois, com o início da produção de novos veículos, com tecnologia mais avançada. Essa troca de produtos, diz ele, é consequência da globalização e deve ser mantida. Já as importações tendem a diminuir após um período maior do lançamento do carro. ‘‘O mérito da indústria brasileira é que, na medida do possível, nacionaliza componentes.’’

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