Um cenário hostil, sem crescimento econômico e com todas as consequências sociais decorrentes da recessão. É assim que o economista Ismael Mologni, professor da Universidade de Londrina, vê a economia ano que vem. Ele considera preocupante o quadro a partir de janeiro. O Produto Interno Bruto (PIB) terá crescimento negativo quando teria de crescer a taxas de 5 a 6% para dar oportunidade a todos e absorver o volumoso contingente de mão-de-obra que precisa entrar no mercado todos os anos. Quem não é incorporado à população economicamente ativa, não gera riqueza, não produz.
Mologni prefere não acreditar numa reversão de tendência no segundo semestre. Para que haja retomada de crescimento tem que haver, primeiro, uma solução para a questão externa. Enquanto houver déficit externo impondo taxas de juros excessivamente altas como ocorre no Plano Real, para atrair investidores, a atividade econômica - aquela que gera riquezas e emprego - será sempre prejudicada.
Os juros altos, para manter a estabilidade dos preços, com financiamento externo, fizeram elevar brutalmente as taxas de juros, que quintuplicaram a dívida líquida interna em 4 anos. ‘‘Era de US$ 60 bi em julho de 94 e está em US$ 310 bi’’, observa o professor. Aí criamos um desequilíbrio interno brutal, provocado pelo desequilíbrio externo, que teve que elevar as taxas de juros, para financiar as importações cujos produtos caíram no mercado interno com preços menores (e fictícios) via paridade cambial.
Mologni observa que as empresas que importaram na mesma proporção que importaram não perderam - porque ganhara na importação -, mas produtos como a soja e a laranja, cujos exportadores nada importam, não têm solução e o jeito é tentar conviver com um câmbio distorcido.
O professor não acredita no empréstimo do FMI como solução temporária. O dinheiro do FMI (US$ 41 bilhões) tende a se pulverizar rapidamente; é corroído pelo custo do déficit externo. O investidor sabe e os agentes econômicos também. Em linguagem didática o que o FMI fez foi aumentar o limite do cheque sem fundo - compara o professor Mologni. Ao celebrar o acordo com o FMI semanas atrás, o governo comemorou, mas este falso otimismo só fez adiar uma solução mais consistente. A dívida continua aumentando. Para Mologni, estamos saindo da ciranda financeira para entrar na agiotagem.
Preço alto O Brasil hoje paga o preço da defasagem cambial, cujo ajuste não foi feito no momento necessário, três anos atrás. A variável central é a taxa de juros. Uma taxa ideal de 8 a 10% seria bom para o crescimento da atividade produtiva mas fatalmente afugentaria o investidor (especulativo), aquele investimento que financia o déficit. Através de taxas de juros que se pratica atualmente, o Brasil está ‘‘comprando’’ sua valorização cambial que, segundo Mologni, está em 30%. O próprio ministro Malan, lembra Mologni, considera insustentável a atual taxa. ‘‘Realmente - disse Mologni - o atual tratamento dado à dívida externa só consegue prorrogar a virtual moratória.
Mologni está prevendo o agravamento do ‘‘desemprego involuntário’’ aquele que afeta o indivíduo dotado de todas as habilidades para preencher um posto de trabalho, mas a empresa não contrata, apesar da existência da vaga, porque tem necessidade de encolher a produção para reduzir custos.
Experiente analista econômico, consultor dos mais requisitados, o professor Ismael Mologni vinha alertando dois anos atrás sobre a necessidade de um ajuste. Ele previu que o déficit chegaria numa posição insustentável e que era necessário mexer no câmbio - além das medidas de médio e longo prazo, como as reformas.
Para diminuir o déficit externo e também as necessidades de reserva agora a solução temporária seria aumentar as exportações e reduzir as importações, sem, porém, prescindir da valorização cambial. Mas, uma máxi, agora, seria um calote - define. Entretanto, com o câmbio atual, não há eficiência competitiva que neutralize este ‘‘ágio’’.
Desde o ano passado, Mologni vem defendendo o seguro cambial para que o Banco Central faça o ajuste no câmbio sem traumas para os agentes na hora de repatriar o dinheiro. Esse hedge iria neutralizar o gap que vai aumentando o déficit público.

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