Oswaldo Petrin

Arquivo FolhaIsmael Mologni: ‘‘A teimosia dos técnicos terá um custo alto’’As exportações de produtos agropecuários poderiam estar rendendo pelo menos 34% a mais para o País (esta é a defasagem cambial acumulada entre julho de 1994 e abril de 1998) e o comércio não precisaria estar enfrentando tantas dificuldades com juros altos. Mas a equipe econômica terá de mexer, ao mesmo tempo, nas taxas de juros e na política cambial. Mesmo que isto só ocorra após as eleições deste ano.
A opinião é do economista Ismael Mologni, professor da Universidade Estadual de Londrina e um crítico das taxas de juros e da maquiagem cambial, que chama de ‘‘traquinagem cambial’’. Ele apontou com números e exemplos os prejuízos que o comércio vem sofrendo por manter o câmbio artificial e pagar juros completamente fora da realidade para segurar investimentos (especulativos) em dólares e manter suas reservas. Depois de uma explicação didática sobre os efeitos das duas vertentes - juros altos e política cambial -, Mologni disse que a economia talvez não suporte que se insista nos erros. ‘‘A teimosia dos técnicos terá um custo muito alto’’.
A inflação acumulada entre julho de 1994 e abril de 1998, quatro anos, foi de 70%. No mesmo período, o real só desvalorizou 14%. Embasado no conceito científico de que a defasagem cambial deve ser resultado da diferença entre inflação interna e inflação externa (no caso, a norte-americana), Mologni faz as contas e diz que o câmbio está supervalorizado em exatos 34,5%. É o que deixa de entrar em dólares, apesar do esforço para exportar mais.
Com as variáveis cambial e monetária que aí estão, o País só favorece a entrada de produtos acabados, reduz as atividades das empresas nacionais e cria o desemprego, quando teria de crescer a uma taxa de pelo menos 5% ao ano e absorver cerca de 1,5 milhão de indivíduos que são incorporados à população economicamente ativa. A economia informal não traz benefício para o País, observa Mologni, porque não é portadora/geradora de tecnologia. Além disso, a economia informal não cria fundos como FGTS, recursos para infra-estrutura e benefícios sociais. Há menos seneamento e mais doenças, explica Mologni.
Com uma política cambial equivocada e acumulando déficit, o País precisa dos dólares dos investidores, capital volátil, e para ter esse dinheiro tem que praticar juros altos. Mesmo assim, a fuga do investidor é iminente pelo risco de uma maxidesvalorização. Aconteceu recentemente com a crise asiática. ‘‘Mas o Brasil não precisava ter feito isto porque está com sua inflação sob controle’’. Já com relação às importações, o consumidor, num primeiro momento, é beneficiado, mas o País coloca a indústria nacional em condição vulnerável.
Sem defender uma maxidesvalorização, ‘‘totalmente inviável neste momento’’, Mologni sugere a adoção do ‘‘seguro cambial’’ para a transição da atual política superficial para um câmbio real.
Por outro lado, explica que ajustar o câmbio não implica necessariamente em criar inflação. O Japão também fez ajustes: em abril de 95 um dólar custava 83,70 ienes e agora são 132 ienes. O Japão desvalorizou seu iene em 57% e não teve inflação.
O seguro, em resumo, funcionaria da seguinte forma: o importador ao liquidar o contrato em dólar na paridade cambial teria que ter esse seguro (um hedge cambial) na diferença das duas paridades. O investidor externo, isto é o aplicador, ao repatriar o dinheiro teria que receber a diferença do seguro. Os novos contratos seriam feitos na paridade real da moeda, expurgados todo os artifícios. Isto teria um custo. Mas, este custo seria menor que a diferença de juros que o País paga hoje para manter as reservas internas. ‘‘O custo desse seguro será menor do que o preço para manter o capital externo, que é um cpaital especulativo porque são papéis que só mudam de nome. Evidente que seria pior sem essas reservas e a economia não pode prescindir desses investimentos de risco’’.

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