Moinhos de vento
A tendência de nacionalização das peças e componentes dos veículos fabricados no Brasil, desencadeada a partir da crise cambial de janeiro de 1999, mostra-se cada vez mais forte. Os benefícios econômicos dessa transformação do mercado são tão bem-vindos quanto óbvios, ou seja, não seria necessário discorrer longamente sobre a geração de empregos, geração de renda e contribuição ao equilíbrio da balança comercial do País.
Mais sutil e também positiva é outra consequência direta do processo de nacionalização dos veículos montados no Brasil: os investimentos das indústrias de autopeças no desenvolvimento de itens capazes de substituir os importados. Aqueles que não mais conseguem raciocinar além do conceito radical de globalização diriam que parte significativa das indústrias brasileiras de autopeças é, na verdade, constituída por multinacionais, que já detêm a necessária tecnologia. O que eles não conseguiram supor, em passado recente e, portanto, não conseguem vislumbrar agora é que há indústrias com capital integralmente brasileiro que conseguiram sobreviver e bem à época das vacas magras, exatamente porque tinham qualidade, visão de mercado e consciência de que tecnologia tornava-se a palavra chave nesse jogo de sobrevivência.
Os fabricantes nacionais de autopeças percebem a evolução do mercado e se ajustam rapidamente à nova realidade, desenvolvendo itens para substituir os importados. Alguns deles simplesmente aceleram o processo de desenvolvimento tecnológico que já vinham desenvolvendo. Além disso, considerando que as montadoras instaladas no Brasil produzem, simultaneamente, veículos com tecnologia avançada e alguns modelos de geração anterior, percebe-se que os fabricantes nacionais de autopeças têm uma vantagem competitiva importante neste momento de transição: podem fornecer componentes de nova geração, fruto dos investimentos que vêm realizando, e de antiga geração, pois, sabiamente, não desativaram sua antiga produção. Afinal, há o mercado de reposição, que ainda tem espaço para peças até mesmo de três décadas, considerando-se a natureza da frota brasileira.
Entender essa vertente do processo de nacionalização das autopeças é importante para que se tenha consciência de que há alternativas, na economia globalizada, para que frutifiquem investimentos e se desenvolvam tecnologias nos países emergentes. Não pode haver conformismo diante do propalado domínio econômico a ser exercido por meia dúzia de nações ricas. Grande número de empresários brasileiros já entendeu esse processo e decidiu optar pelo bom combate. No entanto, não há heroísmo nessa mobilização, mas apenas a certeza de que sobrevivência apesar da rima não é sinônimo de subserviência.
A responsabilidade de não transformar o Brasil em mero distrito industrial da futura Alca não pode pesar apenas sobre os ombros de alguns empresários determinados a enfrentar as vicissitudes da nova ordem econômica nacional. Trata-se de tarefa de toda a Nação, a começar, sim, pelo Estado. Sem subsídios, reservas de mercado e outras aberrações do passado, é necessário, contudo, conferir às empresas nacionais algumas vantagens competitivas de suas concorrentes multinacionais, que, em seus países de origem, contam com linhas de crédito de longo prazo, com juros compatíveis, carga tributária menor e menos encargos e custos. Ter consciência de tudo isso não pode ser prerrogativa de alguns empresários. Tampouco, deve-se encará-los como Quixotes da globalização, pois os obstáculos reais da nova ordem econômica mundial não são inofensivos moinhos de vento....
- FLÁVIO MARQUES FERREIRA é presidente da Marília Autopeças.





