Moinhos de trigo não aceitam adição de farinha de mandioca
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segunda-feira, 03 de setembro de 2001
Ana Paula Nascimento<BR>De Londrina 
Enquanto centenas de pequenas indústrias de farinha e fecularias apostam na adição da farinha de mandioca à farinha de trigo como única chance, no momento, de resolver a crise criada pelo excedente, a indústria moageira de trigo prefere não partilhar dessa esperança e resiste à idéia da mistura, por achar que a medida prejudicaria a qualidade da panificação.
O presidente da Associação Brasileira da Indústria de Trigo (Abitrigo), Roland Guth, lamentou ontem a crise do setor de mandioca, mas disse manter posição contrária à adição de farinha de mandioca à farinha de trigo, como forma de melhorar a comercialização do produto.
''É lamentável que tantos produtores de mandioca estejam passando por dificuldades, mas a adição de farinha de mandioca prejudica muito a qualidade de panificação da farinha de trigo e por isso se torna 'absolutamente' inviável economicamente.''
Segundo Guth, durante o período em que as indústrias de trigo eram obrigadas a adicionar farinha de mandioca à de trigo de 1967 a 1980 , os clientes reclamavam e pediam que a mistura não fosse efetuada e que as indústrias entregassem em separado a saca de farinha de mandioca, que seria utilizada para outros fins. ''O uso da farinha de trigo misturada com farinha de mandioca é inviável tanto para o uso industrial, quanto doméstico, e se a adição fosse boa, nós já estaríamos fazendo.'', reiterou o presidente da Abitrigo. Ele informou que este ano a produção da indústria moageira deva ser de 9,3 milhões de toneladas.
Quando questionado sobre estudos realizados pelo Instituto de Tecnologia de Alimentos (Ital), de Campinas, que aprovam o uso de farinha de mandioca à farinha de trigo, sem perda de qualidades, Guth disse que a Abitrigo possui outros estudos que comprovam o contrário.
A discussão sobre a adicionar ou não a farinha de mandioca voltou à tona esta semana, após uma reunião, na semana anterior, em Brasília, com representantes do setor mandioqueiro do Paraná e o Ministério da Agricultura. As principais reivindicações do setor foram a liberação de recursos financeiros para a Aquisição do Governo Federal (AGF) - o que foi obtido com a confirmação de R$ 5 milhões ainda este mês -, e o apoio do governo sobre a inclusão da farinha de mandioca na farinha de trigo o que deverá demorar mais tempo para se chegar a um acordo concreto com a indústria moageria.
O técnico do Departamento de Economia Rural (Deral), Methodio Groxko, que esteve presente na reunião, considera o momento oportuno para esse tipo discussão. ''É importante que haja uma maior conscientização e o uso de farinha de mandioca na composição da farinha de trigo pode trazer benefícios sociais e econômicos para ambos os setores envolvidos'', afirmou.
Para o presidente da Associação das Indústrias de Derivados de Mandioca do Paraná (Assimap), Demerval Silvestre, a adição da farinha de mandioca à de trigo não compromete a qualidade do produto. ''Estaríamos dando apoio à produção de uma cultura tradicional e beneficiando o consumidor, que compraria um produto de qualidade e mais barato.
Além disso, a indústria moageira estaria importando menos trigo e pagando menos que a metade por uma tonelada de farinha de mandioca, em comparação com a farinha de trigo'', destacou Silvestre, que conta com o apoio do governo federal para agilizar uma reunião para ser discutida a adição. Segundo ele, a tonelada de farinha de trigo está sendo negociada a R$ 650,00, e se apenas 3% da composição da farinha de trigo fosse de farinha de mandioca, toda a produção brasileira de mandioca teria mercado garantido.
A reunião para debater a adição, que possivelmente será em Brasília ou Curitiba, deve ser agendada ainda esta semana. O presidente da Abitrigo já adiantou que o setor da indústria ''pode até participar'', mas que é impossível que haja mudança na posição contrária da entidade.


