Moinhos custeiam produção de trigo
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segunda-feira, 27 de julho de 1998
Eduardo Magossi Agência Estado 
O moinho paranaense SA Moageira e Agrícola, sediado em Irati, resolveu custear as sementes para os produtores de trigo da região com a finalidade de conseguir produto para manter suas máquinas funcionando. Segundo Marcelo Vosnika, diretor comercial da empresa, o moinho custeia as sementes e recebe o pagamento em equivalência-trigo. Esta é uma das alternativas que estão sendo utilizadas por alguns moinhos de pequeno e médio portes da Região Sul para tentar driblar a crise que vem afetando o setor.
Pressionados por falta de recursos e pela perda de competitividade diante das grandes empresas e da indústria moageira da Argentina, muitos destes moinhos estão fechando suas portas. No Rio Grande do Sul, cerca de 54 moinhos dos 106 existentes estão parados. No Paraná, dos 19 moinhos ligados à Associação dos Moageiros de Trigo do Paraná, apenas um está fechado. Corretores paranaenses informam que existem 52 moinhos naquele estado, entre eles vários parados. Em Santa Catarina, grande parte dos moinhos está à venda.
Pequenos moageiros reclamam que, com a produção brasileira de trigo cada vez menor e comprada rapidamente pelos grandes moinhos, as pequenas empresas que não possuem recursos para importar o produto nem para participar dos leilões de Prêmio de Escoamento de Produção (PEP), realizados pelo governo, acabam ficando sem trigo para moer. Por outro lado, o menor custo de produção dos moinhos argentinos tornou a farinha importada daquele país atraente para o consumidor nacional, o que está provocando um aumento da importação do produto.
Em dois anos, as importações de farinha argentina pelo Brasil cresceram quase 400%. Além disso, os moinhos pequenos do Sul - que possuem em média uma capacidade de moagem de 3 mil toneladas por mês - estão ganhando um novo concorrente nas cooperativas, que estão construindo seus próprios moinhos, e podem conseguir matéria-prima a preços mais competitivos.
A atual situação destes moinhos de pequeno porte também é um reflexo da própria cadeia do trigo onde, entre 1990 e 1998, a indústria moageira nacional aumentou sua capacidade instalada em 62,7% enquanto a produção brasileira, no mesmo período, caiu 27%.
Segundo Francisco Palmieri, sócio gerente da Motripar Moinhos do Paraná, a queda na produção nacional de trigo é dos fatores limitantes para os pequenos e médios. Cerca de 70% do trigo que processamos é nacional. Com a produção cada vez menor, não temos condições de importar e ficamos com capacidade ociosa, afirma.
Leilões Segundo ele, os leilões de PEP têm sido prejudiciais para os pequenos e médios. O governo faz o PEP e quem acaba comprando este trigo são os grandes moinhos porque os pequenos não possuem caixa para realizar o pagamento à vista exigido, disse.
Palmieri explica que, com o PEP, os grandes compram um volume expressivo do produto, reduzindo a oferta no mercado e contribuindo para a alta do preço do trigo restante, prejudicando os negócios dos pequenos. Quem não precisa de subsídio, acaba tendo acesso a um trigo subsidiado, afirma.
Palmieri afirma também que os leilões de PEP contribuem para tirar o produto das regiões produtoras. Muito trigo produzido no Paraná vai para outros estados através do PEP, e depois volta para o Paraná como farinha. Somos penalizados duas vezes, disse.
Terceirização Para tentar ocupar a capacidade ociosa de seu moinho, a Motripar está terceirizando suas máquinas e realizando a moagem para outras indústrias. É uma maneira de conseguir algum recurso enquanto não temos trigo para processamento próprio, explica Palmieri. Mesmo terceirizando, contudo, a capacidade da Motripar, que é de 3 mil toneladas/mês fica, no máximo, ocupada com 2,3 mil toneladas.
Vosnika, do moinho SA Moageira e Agrícola, afirma que para manter 70% da capacidade instalada de 3 mil toneladas mensais ocupada, precisou realizar parcerias com fábricas de massas, além de custear o plantio de produtores. A SA Moageira está, então, moendo o trigo proveniente de leilões de troca de trigo por macarrão realizados pelo governo para as fábricas de massas que receberam o produto em grão.
Se não fosse esta alternativa, não teríamos o que moer na entressafra já que não possuímos capital de giro para manter estoques, disse Vosnika. O moageiro alerta também para a pressão exercida no mercado pela farinha argentina, cuja importação pelo Brasil tem aumentado de forma expressiva.


