Moendo o desemprego
PUBLICAÇÃO
sábado, 21 de fevereiro de 2009
Apolo Theodoro<br> Especial para a FOLHA 
Em tempo de desemprego como o atual, que tal esfriar a cabeça com uma garapa bem gelada lá na garapeira do Renato? Por que lá? Por vários motivos: além de primar pela limpeza do ambiente de trabalho e ter um caldo de cana delicioso, que faz gente vir de longe e fazer fila pra beber, na garapeira do Renato tem cadeiras preguiçosas pra sentar e, veja só, revistas e livros pra quem quiser ler enquanto espera a cana moer.
Mas, o convite para tomar uma garapa lá não é só por tais atrativos, tem outro motivo; não é apenas por esses diferenciais em relação aos seus congêneres que o Renato está saindo na FOLHA hoje. É que, neste tempo de crise e desemprego, conversar com ele pode motivar muita gente a tomar novo rumo na vida nem que seja para virar um... Garapeiro.
Ex-técnico da área de TV a cabo, Renato trabalhou 12 anos numa mesma operadora. Em 2005, após mudança na direção da empresa, se viu desempregado da noite pro dia e, pior, com poucas chances de obter outro emprego similar ao perdido numa época que, se não era de crise como a atual, não deixou de ser dramática - afinal, com crise ou sem crise, não é fácil pra ninguém ficar desempregado, principalmente se você, como ele, é casado e tem família pra criar.
Claro que a fórmula usada pra um pode não servir pra outro, mas, alguns ingredientes usados por José Renato Pereira, 48 anos, naquele momento de amargura causado pelo desemprego, são indispensáveis e podem ser usados por quem não queira ficar sem receita e deixar que o prato amargo do desemprego torne mais indigesta ainda do que já é a vida de quem vive de salário.
Renato, que chegou a ganhar 15 salários mínimos por mês, conta que se viu frente a duas alternativas caso quisesse continuar na profissão: ou mudava de cidade para ter um ganho compatível com o que tinha aqui em Londrina ou me sujeitava a trabalhar em empreiteiras de serviços públicos para ganhar algo em torno de 600 reais por mês hoje, muito menos do que ganho como garapeiro, compara.
Filho único de mãe viúva e dois netos ainda pequenos foram determinantes na decisão de continuar em Londrina, mesmo que para isso tivesse que mudar de vida, encarar uma nova profissão, um novo trabalho que nem ele mesmo sabia qual. A princípio, indeciso quanto ao que fazer, se precipitou e comprei um chaveiro sem conhecer nada do ramo, mas em cinco meses larguei, não gostei, fazer chave não era a minha, deixei para o meu enteado que era meu sócio.
Se perdeu dinheiro com o chaveiro descobriu que uma das chaves do sucesso empresarial é não se precipitar e analisar bem o negócio antes de investir, o que fez logo a seguir ao descartar o conselho dos amigos de abrir uma lanchonete, já que é bom cozinheiro. Além do dinheiro que teria de gastar para implantar o negócio, lanchonete tem uma infinidade de gastos que, talvez, no fim do mês, não dê o que ganho aqui com a garapa, destaca Renato.
Mas, se a porta do chaveiro fechou, outra se abriu: Eu passava sempre na frente do estádio do Café quando ia trabalhar e tinha uma mulher trabalhando numa garapeira aqui, ela era enfermeira e queria sair deste trabalho, até que um dia passei pra tomar um caldo de cana e não vi mais ela aqui, abandonou o ponto.
Foi o ponto de partida para Renato que chegou em casa animado naquele dia e propôs à esposa: Vamos tentar trabalhar com uma garapeira, Neusa?. A mulher topou na hora e até hoje eles brindam a parceria, numa demonstração de que trabalhando unido e com um só objetivo o casal - e qualquer outra sociedade - pode prosperar. Minha mulher é minha parceira, ela me ajuda bastante aqui, reconhece Renato.
Com a decisão tomada, Renato, que sempre gostou muito de caldo de cana, foi a campo conhecer o trabalho dos futuros concorrentes e observou que muitos garapeiros não dão valor ao trabalho, não têm higiene, esquecem que este trabalho tem que ser tratado como outro qualquer; que tem que manter um horário de atendimento para respeitar os clientes... Eu notava que muitos deles levavam a coisa de qualquer jeito.
Conhecido o trabalho da concorrência, ao engatar o carrinho da moenda no seu Opala - hoje o engate é numa Kombi - Renato conta que a primeira coisa que estabeleci com a minha mulher é que a higiene e o asseio seriam a nossa marca registrada e mantemos isso até hoje, nossa garapeira é limpinha, vem gente de longe, atravessa a cidade, só pra tomar o nosso caldo de cana, revela, enquanto lava a mão após pegar no dinheiro para dar troco a um freguês.
As outras novidades - as cadeiras preguiçosas, as revistas e os livros - vieram com a moenda já funcionando e foram implantadas quando ele decidiu transformar sua garapeira num local mais aprazível aos clientes. Os livros são do seu acervo pessoal e as revistas, como não as assina nem pode comprar, ele pega com uma parente após ela acabar de lê-las.
Para muitos, que, como Renato, trabalham ou trabalharam numa empresa de ponta, de alta tecnologia, se sujeitar a trabalhar como garapeiro ou coisa que o valha soaria como desprestígio, desvalorização profissional e social, vergonhoso... Como lidou com isso, Renato? Ele rebateu na lata - Em nenhum momento senti ou sinto vergonha do que faço - e ensinou:
O que falo para o meu filho é o seguinte: seja lá o que você fizer na vida procure ser o melhor, não importa que você seja lixeiro ou garapeiro, o mundo está cheio de medíocres. Qualquer que seja a profissão, médico, engenheiro, advogado, mecânico, não importa, em todas as profissões existem pessoas medíocres e pessoas de sucesso - estas valorizam o que fazem e quem se valoriza faz sucesso, você se respeita e as pessoas te respeitam.
Por isso ele continua moendo cana mesmo porque, ao contrário dele, tem gente que trabalha de empregado o dia inteiro e no fim do dia não tem dinheiro nem pra uma cerveja com os amigos ou pra passear com a família à noite. Em vista disso, ele diz, pesando prós e contras, não penso em deixar o que estou fazendo não, claro que tem dificuldades, pode chover o mês inteiro, mas estou tranquilo. Seguro, ele pergunta - Com a crise, quem não está com medo de perder o emprego? - e sustenta: Eu não tenho este medo.
Mirando na própria experiência, Renato diz que a pessoa desempregada deve olhar de lado para poder ver outras oportunidades, não ficar dependendo dos outros, de outros empresários pra trabalhar, tentar fazer as coisas por si mesmo. E, para estimular outros a seguirem seu exemplo, ele conta que me descobri fazendo coisas que achava nunca ser capaz de fazer, coisas que mudaram sua vida. Hoje estou feliz com o meu trabalho, trabalho que apareceu num momento de dificuldade e que acabou transformando a minha vida para melhor.


