Arquivo FolhaChrétien, 1º-ministro do CanadáNão fosse a diferença de idiomas, as metas do governo canadense poderiam ser confundidas com as do presidente Fernando Henrique Cardoso, que assumiu o compromisso de duplicar as exportações até o ano 2002. O primeiro-ministro do Canadá, Jean Chrétien, prometeu dobrar o número de empresas exportadoras até a virada do que século. E, como parte deste projeto, montou uma investida comercial, com 350 empresários, que desembarcaram ontem em Brasília e assinarão amanhã, em São Paulo, mais de 40 contratos com firmas brasileiras.
Chrétien pretendia chefiar a gigantesca delegação, integrada também por ministros, uma dezena de governadores e uma centena de jornalistas. Mas na terça-feira (13) à noite ele telefonou para Fernando Henrique, cancelando seus planos de embarcar ontem para Brasília. Ele disse que não podia deixar o Canadá por causa de uma violenta tempestade de neve, que deixou milhares de pessoas sem energia e aquecimento, mas não descartou a possibilidade de se juntar ao grupo em São Paulo.
O cancelamento da viagem de Chrétien a Brasília era esperado. Seus planos iniciais eram de embarcar com os demais integrantes da missão Equipe Canadá (como foi batizada essa parceria dos setores público e privado, formada em 1994, para promover negócios em novos mercados) no último dia 11. Mas a tempestade obrigou o primeiro-ministro a ficar para trás, saltando o México - a primeira escala desse tour comercial pela América Latina, que inclui também a Argentina e o Chile.
O governo brasileiro sabia que, se a situação de calamidade na Canadá não melhorasse, Chrétien poderia perder também a segunda escala. Mesmo assim, manteve inalterada a sua programação oficial de ontem: um encontro às 10h, com Fernando Henrique, no Palácio do Planalto; reuniões com os presidentes da Câmara dos Deputados, Michel Temer (PMDB-SP), e do Senado, Antônio Carlos Magalhães (PFL-BA); e um jantar em sua homenagem. No lugar do primeiro-ministro irá o governador-geral, Roméo LeBlanc, cujo cargo equivale ao de presidente num sistema parlamentarista.
Coincidência A ausência de Chrétien não reduz a importância da missão comercial canadense, num momento em que uma crise financeira asiática está abalando a confiança de alguns investidores em economias emergentes como o Brasil que, até o início do colapso dos Tigres Asiáticos no ano passado, eram considerados os mercados com maior potencial para crescer. Apesar do clima de insegurança, o número de empresários canadenses interessados na América Latina duplicou em relação aos 140, que integraram a Equipe Canadá na sua última visita à região, em 1995.
‘‘Canadá e Brasil têm um enorme potencial para expadir seu comércio bilateral, realizando parcerias e joint-ventures em muitas áreas, como navegação, mineração, telecomunicações e petróleo, agora que a abertura econômica favorece a iniciativa privada’’, disse ontem o ministro da Indústria, do Comércio, e do Turismo, Francisco Dornelles.
Árduo defensor da necessidade de o Brasil adotar uma atitude mais agressiva, nos foruns internacionais, para proteger seu comércio, Dornelles foi moderado ao mencionar o principal contencioso entre os dois países: a disputa no setor de aeronáutica, envolvendo as empresas brasileira Embraer e canadense Bombardier . Segundo ele, em vez de recorrer à Organização Mundial do Comércio para questionar a concessão de subsídios às industrias canadenses, como ameaçou o chanceler Luiz Felipe Lampreia, a melhor saída seria acertar as diferenças numa negociação bilateral.

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