Hong Kong - Os principais negociadores da Rodada Doha, lançada há quatro anos para ser a Rodada do Desenvolvimento, poderão voltar para casa sem levar na bagagem o fracasso da 6 Conferência Ministerial da Organização Mundial do Comércio (OMC). Na arrancada final, ministros de cerca de 30 países trabalharam, discutiram e trocaram desaforos por cerca de 20 horas, até as 9h30 de ontem, foram descansar e no meio da tarde retomaram as consultas.
''A rodada chegou a 60% do caminho e ganhou 5% nesta semana'', disse, depois de encerrada a conferência, o diretor-geral da OMC, Pascal Lamy. Os negociadores, acrescentou, mostraram energia política necessária para concluir o trabalho até o fim do ano. ''Agora eu acho isso possível. Não achava há um mês'', confessou Lamy.
A possibilidade de um entendimento começou a ficar muito clara quando a delegação americana distribuiu, à tarde, a transcrição de uma rápida entrevista dada por seu chefe. Robert Portman, ao sair do centro de convenções. ''Se 2013 é o melhor que podemos obter, penso que deveríamos olhar muito, muito cuidadosamente para isso'', acrescentou, referindo-se a uma negociação muito difícil.
No começo da noite, os negociadores haviam sacramentado o compromisso de extinção, até o fim de 2013, de todas as formas de subsídio à exportação agrícola. Esse foi o compromisso mais trabalhoso e poderá simbolizar uma conferência de resultados paradoxais. Nesse tópico, todos podem clamar vitória, a começar pelos europeus. O prazo para o fim dos subsídios do agronegócio é o mesmo da reforma da Política Agrícola Comum (PAC).
Além disso, o texto menciona também as subvenções embutidas no crédito, na ajuda alimentar e no comércio de empresas estatais e monopolistas. O enquadramento vale para Estados Unidos, Canadá, Austrália e Nova Zelândia.
Brasil, EUA e outros exportadores ganham de duas formas: 1) na fixação de uma data, fator de credibilidade do compromisso, segundo o chanceler Celso Amorim; 2) no requisito de extinção de ''parte substancial'' dos subsídios à exportação na primeira metade do período de implementação. Isso corresponde a 2010, prazo defendido até a manhã de ontem por brasileiros e americanos e rejeitado pelo comissário de Comércio da UE, Peter Mandelson.
Amorim aponta como bom resultado, também, o compromisso de cortes ''efetivos'' no apoio interno causador de distorções no mercado. O truque está na palavra ''efetivos'', segundo os diplomatas.
Críticos têm opinião diferente. Segundo a ONG Actionaid, a reforma européia levaria os subsídios à exportação de 3 bilhões de euros em 2004 para 1 bilhão de euros em 2013, com ou sem acordo na Rodada Doha. O apoio interno europeu diminuirá muito menos: de 58 bilhões para 55 bilhões de euros no mesmo período.
''Estão discutindo a cor da maquiagem do fracasso'', havia dito no começo da tarde o diretor da Actionaid para as Américas, Adriano Campolina. O argumento vale para o caso das subvenções européias à exportação, mas o documento menciona também ''cortes efetivos'' nos gastos de apoio interno, elevados tanto na Europa quanto nos EUA. Falta converter ''efetivos'' numa porcentagem.
Segundo Campolina e Marcos Jank, professor da USP e estudioso de negociações comerciais, não houve avanço nas negociações de acesso a mercados e também isso mostra a pobreza de resultados. Acesso a mercados é o objetivo central da rodada, tem dito Amorim.
Podem ter sido feitas apostas erradas, mas a atuação do G-20, junto com a de outros grupos de países em desenvolvimento, contribuiu para revigorar as negociações. Apesar do ceticismo e da baixa expectativa, a conferência de Hong Kong repôs a rodada nos trilhos, disse Lamy.

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