Buenos Aires – Juan Alemann não tem meias-palavras para avaliar a decisão da equipe econômica argentina de acabar com o regime de conversibilidade e desvalorizar o câmbio. Para o economista, ex-secretário de Fazenda nos anos 70, o fim desse sistema ‘‘foi um erro medieval e grosseiro’’, acentuado por outros equívocos, como a adoção do câmbio duplo e de regras mais rígidas para a liberação dos depósitos presos no curralzinho. Os caminhos seguidos, afirma ele, conduzem o país a uma ‘‘catástrofe’’ e a uma ‘‘hiperrecessão que ninguém vai suportar’’.
Alemann parte do princípio de que o regime de conversibilidade, que vigorou de 1991 ao final de 2001, não estava esgotado e funcionava bem. Ao permitir operações financeiras em dólares no país, esse sistema garantia a preservação dessas divisas em território argentino.
Além disso, argumenta, provocou a redução de custos de produção e garantiu a elevação nas exportações, que cresceram 13% em 2000. A política fiscal desajustada era culpa do perfil ‘‘estatista e burocrático’’ do Fundo Monetário Internacional (FMI), que jamais permitiu a terceirização da arrecadação tributária.
Uma vez desmontada a conversibilidade, Alemann acredita que foram cometidos ‘‘erros idiotas’’ por uma equipe que ‘‘não entendeu o sistema bancário nem a teoria monetária’’. A mesma equipe, insiste ele, hoje se vale da opinião de especialistas estrangeiros, que não acompanham permanentemente a realidade argentina. Pontualmente, o economista assinalou à Agência Estado três erros na política ditada pelo ministro da Economia, Jorge Remes Lenicov.
O primeiro foi não ter adotado o câmbio flutuante de vez, a partir da decisão de acabar com a conversibilidade. Em seu ponto de vista, essa decisão interrompeu as exportações. O segundo erro foi ter endurecido as regras de liberação dos depósitos do curralzinho. Essa opção reduziu pela metade o dinheiro em circulação no país e levou à paralisação da cadeia de pagamentos da economia e à ‘‘criação de uma economia em hiperinflação’’. A flexibilização adotada na última semana, para ele, terá de ser ampliada.
‘‘O congelamento dos depósitos mostra que eles (a equipe econômica) não entenderam nada de sistema monetário. Eles desmonetizaram a economia’’. Segundo Alemann, essa decisão conduz o país a uma catástrofe social. ‘‘Aqui, ninguém quer os pesos. Não é como no Brasil. Se o sistema bancário não aceita depósitos em dólares, a poupança não fica no país’’, explica. ‘‘Vivemos 45 anos de inflação, dos quais em 15 a taxa era de dois dígitos. Como se pode querer que as pessoas acreditem na moeda’’?
O terceiro equívoco, para Alemann, está na indecisão da equipe econômica, que não sabe como atuar em várias frentes. O economista afirma que nem Remes Lenicov e nem o FMI sabem como fechar um orçamento consistente para 2002. ‘‘O déficit fiscal será superior a US$ 10 bilhões porque a recessão será pior que a imaginada’’.

mockup