A retomada da valorização do salário mínimo nos últimos anos tem refletido na qualidade de vida de uma parcela cada vez mais expressiva da população brasileira: os idosos. À medida que se tornam autossuficientes, eles também deixam de representar um peso no orçamento familiar. As constatações são da pesquisa ''Envelhecimento, Bem-Estar e Desenvolvimento: Um Estudo Comparativo do Brasil e da África do Sul'', realizada por pesquisadores da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), Universidade de Norfolk (Estados Unidos) e Universidade de Rhodes (África do Sul).
O estudo foi coordenado pela Universidade de Manchester (Inglaterra) e feito em duas etapas: a primeira, no ano de 2002, e a segunda, em 2008. No Brasil, os pesquisadores visitaram cerca de mil domicílios com pessoas acima de 60 anos, nas zonas rural e urbana do Rio de Janeiro e de Ilhéus, na Bahia. Na África do Sul, foram entrevistados 1,1 mil domicílios de três regiões.
Focando na renda domiciliar per capita como indicador de bem-estar, a pesquisa conclui que benefícios sociais como pensões e aposentadorias contribuíram para a saída da linha de pobreza (famílias que vivem com menos de US$ 1,00 por dia) de quase um sexto dos domicílios pesquisados na África do Sul. No Brasil, a mesma situação foi verificada em uma de cada cinco famílias pesquisadas.
Entre os que ganharam novas perspectivas de vida a partir do benefício estão a cozinheira Izaura Maria de Jesus, 61 anos, de Londrina. Embora sempre tenha enfrentado uma rotina puxada de trabalho - atuou em cozinha de hotel, casa de família e num abatedouro de frango - nunca se preocupou muito com aposentadoria. Só há dois anos entrou com o processo e passou a receber o benefício.
Com o dinheiro, Izaura pôde comprar jogos de quarto para dois sobrinhos e equipar sua casa com TV, cama e um fogão novo. Além de mais conforto, ela revela que a aposentadoria trouxe novos sonhos. ''Meu irmão, que eu sempre ajudei, também conseguiu se aposentar. Com isso, acho que vai dar para começar a guardar dinheiro e, quem sabe, comprar nossa própria casa'', anima-se, sem esconder a satisfação de poder contar, pela primeira vez, com algumas sobras de recursos. ''É uma recompensa por tantos anos de trabalho'', diz.
A aposentadoria ajuda mas a dona de casa Terezinha Fernandes Prado, 75 anos, não tem sobras no orçamento. Com o que recebe banca a alimentação da família. ''Meu marido paga aluguel, água, luz, e eu me encarrego do supermercado. Estou aposentada há oito anos, e o valor pago vem melhorando. O problema é que os preços têm subido muito também'', argumenta Terezinha, que traz as finanças na ponta do lápis para não perder o controle.

mockup