O vencedor do prêmio Nobel da Paz, Muhammad Yunus, já anunciava em 2006 o sucesso do microcrédito na economia mundial. O economista indiano, conhecido como o ''banqueiro dos pobres'', ganhou o prêmio por seu trabalho com créditos de pequenos valores, destinados ao fomento da atividade econômica por meio de negócios sociais. Segundo dados do Banco Central, na soma de janeiro a outubro deste ano, o valor total de microcréditos destinados à microempreendedores foi de R$ 1,8 bilhão, distribuídos em 1,3 milhão de contratos. Já nos microcréditos destinados ao consumo, o valor do acumulado do ano foi de R$ 1,1 bilhão, distribuídos em 8,4 milhões de contratos.
Somente em outubro de 2010, os recursos do microcrédito direcionados aos microempreendedores alcançaram a quantia de R$ 196,2 milhões; o número de contratos fechados passou de 153 mil e o valor médio dos empréstimos foi de R$ 1.405,13. No mesmo período, os recursos do microcrédito direcionados ao consumo foram R$ 61,7 milhões; a quantidade de contratos ultrapassou 770 mil e o valor médio dos empréstimos voltados ao consumo foi de R$ 404,56.
O professor de estratégica do ISAE/FGV, Luciano Salamacha, explica que não existe uma regra geral que define os padrões do microcrédito no Brasil. O que existe é uma metodologia de concessão do crédito diferenciada em relação aos empréstimos tradicionais. ''O conceito é de um crédito de pequeno valor voltado à pessoas que não têm acesso à instituições formais, mas que querem fomentar sua atividade'', define. No microcrédito há, ainda, maior flexibilização quanto à documentação necessária para liberação do crédito e menores taxas de juros.
De acordo com o coordenador de Acesso a Serviços Financeiros do Sebrae de Curitiba, Flávio Locatelli Júnior, o valor médio dos microcréditos no Sul do País é de R$ 3,5 mil. Locatelli esclarece que existem dois modelos de microcrédito: o produtivo, voltado à atividades empreendedoras, e o de consumo, destinado a investimentos pessoais. Segundo ele, o grande diferencial do modelo produtivo é a existência de um agente de crédito, responsável por captar os contratos junto à comunidade. Trata-se do microcrédito produtivo orientado, no qual o agente orienta a elaboração do projeto de solicitação de crédito, acompanha o processo e também o desenvolvimento da atividade após a liberação do crédito.
O contabilista Reinaldo Kogawa é agente de crédito há sete anos, sempre atuando com microcrédito na Casa do Empreendedor de Londrina, uma Organização da Sociedade Civil de Interesse Público (Oscip). Inicialmente, Reinaldo elabora o cadastro do cliente interessado, no qual constam os dados básicos da pessoa e do empreendimento, além do resultado de uma consulta ao SPC e Serasa. Em seguida, o agente providencia o levantamento socioeconômico. ''Eu visito o cliente e faço perguntas sobre a atividade que ele realiza, principalmente sobre os dados financeiros, como fornecedores, clientes, custos de produção, faturamento e despesas'', relata.
Além da exigência de garantia, os agentes também avaliam as condições de pagamento do empreendedor. ''Também checamos os fornecedores para termos referências quanto ao comportamento do cliente em relação aos pagamentos'', comenta Reinaldo. No final, os agentes repassam todas as informações e documentos coletados, bem como o próprio relato sobre a situação do cliente, para o Comitê de Crédito formado por conselheiros da Casa do Empreendedor, que irá decidir se libera o crédito e também definir o valor e o número de parcelas.
''Também fazemos um acompanhamento após a liberação do crédito. É o que chamamos de revisita, que fazemos para saber como o empreendimento e o cliente estão indo. Vemos isso como uma parceria para que o cliente continue crescendo e a gente continue ao lado dele'', conclui Reinaldo. Segundo o agente de crédito, que já fechou cerca de 830 contratos, a maioria dos microcréditos é feito para empreendimentos do setor de vendas, como confecções, cosméticos, salões de beleza e costureiras. ''O microcrédito facilita muito o desenvolvimento desses empreendimentos. Fechamos muitos contratos com clientes que hoje já estão estruturados e são empreendedores respeitados'', relembra.

mockup