Metalúrgicos comemoram rezando
Marie Hippenmayer/France PresseComoçãoFamílias de funcionários da Ford rezam no pátio da montadora: trégua dá esperança aos demitidosA suspensão das 2,8 mil demissões na fábrica da Ford de São Bernardo do Campo (SP) transformou ontem o pátio da empresa em palco de uma festa religiosa e política. Depois da comemoração, e da aprovação de um acordo que dá uma trégua e muita esperança aos demitidos, a empresa finalmente voltou a produzir, depois de 48 dias paralisada por conta de férias coletivas, licenças, paralisações promovidas pelos empregados e ocupações da fábrica. Em janeiro, 3,5 mil veículos deixaram de ser montados.
A suspensão durará até o dia 18. Um pacote de demissões voluntárias ficará aberto até o dia 12, válido para todo o efetivo de 6 mil empregados, com pagamento de até dez salários da função aos que aderirem, conforme o tempo de casa. No dia 22, começa tudo de novo: negociação para saber o que fazer com os excedentes e para reduzir os custos da empresa.
Todos os ex-demitidos vão receber os salários de janeiro e também os de fevereiro, o que os tira da penúria em que permaneceram durante o movimento. Eles dependeram de doações arrecadadas em sindicatos e portas de fábrica.
O presidente do Sindicato dos Metalúrgicos do ABC, Luiz Marinho, prevê que a nova negociação vai se dar sobre no máximo 1,2 mil excedentes - e não mais 2,8 mil. É que mais de 700 já deixaram a companhia, pois não tinham interesse em lutar por seus empregos. O sindicalista crê que outros cerca 900 vão optar pelo voluntariado, já que as indenizações estão mais convidativas.
Convencer a Ford a reintegrar definitivamente esses 1,2 mil será mais fácil, especialmente se o projeto para escoamento do estoque de veículos, com redução do IPI e do ICMS, sair do papel rapidamente. Além disso, há o projeto de renovação da frota com mais de 15 anos de uso, que dará bônus para os proprietários de carros velhos adquirirem um zero quilômetro. O sindicalista não revelou as propostas que levará, mas admitiu que estuda todo tipo de solução, de redução jornada e de salários até terceirizações.
O movimento chamou a atenção do presidente de honra do PT, Luiz Inácio Lula da Silva, pelo ineditismo. Nunca uma empresa recuou na decisão de demitir em massa, depois de comunicar o desligamento. Em 30 anos de sindicalismo, nunca vi isso, disse Lula.
Acho que a partir de agora muitos trabalhadores não vão mais se resignar quando forem cortados. O movimento, diferente de tudo o que já foi feito - em vez de reagir com violência, os demitidos apresentavam-se todos os dias e pediam para trabalhar - consagrou Luiz Marinho como a liderança sindical de maior prestígio do País hoje.
Carregado nos ombros dos empregados e aclamado como herói, Marinho, que sempre foi acusado de não ter o perfil de um líder de massa, provou ter superado essa fase, só que com estilo diferente. Seus discursos foram sempre carregados de informações sobre as negociações.
Com essa conduta, ele remeteu para o passado a anacrônica imagem do sindicalista carismático, mero animador de assembléias.
A festa dos ex-demitidos teve de tudo. Reza, com famílias ajoelhadas no asfalto agradecendo a Deus pelo desfecho parcial, mas favorável. Nos discursos de muitos dirigentes, o tom de religiosidade preponderou, assim como o nacionalismo.





