São Paulo- O forte recuo da demanda mundial aliado a escassez de crédito fez a iniciativa privada congelar os investimentos no setor de infraestrutura. Levantamento feito pela Fundação Dom Cabral, com 116 companhias de grande porte, mostra que metade das empresas postergaram seus planos de expansão neste ano. Dos projetos adiados, 53% referem-se a terminais portuários, ferrovias, transporte rodoviário e armazéns.
A decisão pode representar fortes prejuízos no futuro e contribuir para aumentar ainda mais o sucateamento da infraestrutura brasileira. ''Achamos a reação das empresas bastante exagerada. Estrategicamente é um erro'', afirma o professor da Fundação Dom Cabral, Paulo Resende, responsável pelo levantamento.
Na semana passada, por exemplo, a mineradora Vale decidiu reduzir em R$ 1,2 bilhão os investimentos em infraestrutura logística até 2013, além de esticar o prazo de conclusão de outras obras. Outros empreendimentos, já iniciados pela companhia, estão mantidos. No setor portuário, a LLX Logística, do grupo EBX, suspendeu a construção do Porto Brasil, no litoral paulista.
Segundo o presidente da companhia, Ricardo Antunes, vários fatores contribuíram para o adiamento, como as questões ambientais. ''Além disso, o projeto estava numa fase muito inicial e tinha um prazo mais longo para ser concluído.'' Por isso, a LLX deu prioridade para os outros projetos da área. O Porto Brasil estava orçado em cerca de R$ 4 bilhões.
O presidente da Associação Brasileira de Terminais Portuários (ABTP), Willen Manteli, lembra que, embora as metas de crescimento de movimentação nos portos estejam ameaçadas por causa da crise, esse não é um momento para relaxar. ''Temos de aproveitar esse espaço para fortalecer nossa infraestrutura e melhorar os acessos aos portos.''
O temor dos especialistas é que essa perigosa sensação de alívio possa piorar ainda mais a posição do País em termos de competitividade. Isso porque o resto do mundo elegeu a infraestrutura como base para combater a crise. ''Enquanto isso, o Brasil está perdendo o cronograma de investimentos em vários setores da infraestrutura. Agora estamos nas costas do PAC (Programa de Aceleração do Crescimento)'', diz Resende.
O grande problema é que o ritmo do programa federal está aquém das expectativas e das necessidades do setor. Nos dois primeiros anos de existência do PAC, o governo federal conseguiu gastar apenas 28% do orçamento destinado aos projetos. ''Se esse quadro não mudar, continuaremos vendo as mesmas cenas do passado, como filas em portos e estradas esburacadas'', diz o presidente da Confederação Nacional do Transporte (CNT), Clésio Andrade.
''Temos de nos preparar para disputar mercado com nossos concorrentes'', destaca Manteli. No setor agrícola, destaca ele, os produtores americanos de soja recebem 93% do valor final do produto. No Brasil, os produtores recebem apenas 75%. O restante é o chamado custo Brasil. Ou seja, o País poderia ser ainda mais competitivo se o custo logístico não fosse tão alto.
Estudo recente feito pelo Banco Interamericano de Desenvolvimento (Bid) mostra que se o Brasil reduzisse em 10% os custos de transportes, as exportações para os Estados Unidos aumentariam mais de 40%. Já um corte de 10% nas tarifas de importação daquele país representaria um incremento de apenas 1% nas exportações brasileiras.

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