Foz do Iguaçu - Cerca de 50% das 2,1 milhões de toneladas de sementes de soja que serão utilizadas na safra 2015/16 em todo o Brasil são derivadas da produção interna das fazendas ou são piratas. O dado, considerado alarmante pelo setor de sementes, foi um dos temas abordados no 18º Congresso Brasileiro de Sementes, que começou ontem e ocorre até a próxima quinta-feira em Foz do Iguaçu.
José de Barros França Neto, presidente da Associação Brasileira de Tecnologia de Sementes (Abrates), entidade com sede em Londrina, afirma que muitos produtores querem reduzir os seus custos, produzindo a própria semente ou até mesmo comprando o insumo de fornecedores que não têm autorização para comercializá-lo. A questão, avalia o dirigente, é que o agricultor esquece que essa prática prejudica todos os elos da cadeia produtiva.
O primeiro problema, pontua França Neto, é a baixa qualidade dessas sementes e os riscos que elas oferecem, principalmente em relação à proliferação de pragas e doenças. "Aqueles que produzem as suas próprias sementes não conseguem manter a qualidade de um produto original", descreve o dirigente. Para ser um produtor de sementes, o presidente da Abrates explica que o produtor necessita estar registrado no Ministério da Agricultura. Contudo, afirma ele, muitas vezes isso não acontece.
Em relação à semente pirata, ele afirma que muitos agricultores levam em conta o baixo valor do insumo "alternativo". Em média, avalia França Neto, o valor pago pelo quilo de uma semente de soja certificada gira em torno de R$ 3, enquanto que o de uma semente pirata (não original) sai por R$ 1,50/kg. O dirigente completa que o agricultor esquece que esse tipo de semente tem uma produtividade 10% inferior se comparado a uma semente original.
"Semente pirata não tem nenhuma garantia de qualidade", descreve. França Neto acrescenta que a produção de sementes próprias, sem nenhum critério de reprodução, ou a aquisição de variedades piratas prejudica inclusive as instituições de pesquisas, já que essas variedades não recolhem royalties nem taxas que precisam ser pagas para a obtenção de uma determinada tecnologia. "Isso inibe novos investimentos no ramo da pesquisa", lamenta.
José Renato Bouças Farias, presidente da Embrapa Soja, aponta que o agricultor brasileiro precisa buscar utilizar sempre sementes de boa qualidade. Para isso, o produtor necessita buscar fontes idôneas na hora em que for adquirir o insumo. "Semente é a base de tudo, por isso é necessário garantir uma boa qualidade", observa.
Roberto Rodrigues, ex-ministro da agricultura e membro da Ceres Consultoria, destaca que sem semente de qualidade não há agricultura competitiva. Segundo ele, boa genética é o que garante uma alta produtividade em uma lavoura.

Combate

Scylla Cezar Peixoto Filho, presidente do Comitê de Sementes e Mudas do Paraná (CSM), afirma que a legislação no combate à pirataria é muito deficitária. Ele observa que a fiscalização não chega aos produtores que replicam sementes. Peixoto Filho destaca que a reprodução de uma semente em uma propriedade só é permitida para uma safra. Contudo, muitos agricultores ignoram isso e acabam utilizando uma mesma variedade em diversos ciclos.
Além disso, muitos acabam comercializando os excedentes para os seus vizinhos. Ele completa que a partir do momento em que uma determinada semente é comercializada para terceiros ou está sendo reproduzida há muitos ciclos consecutivos, ela já pode ser considerada pirata.

* O repórter viajou a Foz do Iguaçu a convite da organização do evento
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