Nos bastidores, os técnicos da equipe econômica admitem que o governo terá dificuldades de cumprir a meta de superávit primário de 3,8% do Produto Interno Bruto (PIB), mesmo com os artifícios contábeis à sua disposição. Hoje, por exemplo, nem os gastos do Projeto Piloto de Investimentos (PPI) nem os eventuais gastos financiados com recursos do Fundo Soberano, que somam, juntos, cerca de R$ 30 bilhões, ou 1% do PIB, contam no resultado fiscal.
Ou seja, em tese, o governo tem aval legal para fazer um superávit de 2,8% do PIB (3,8% menos 1%) e oficialmente comprovar o cumprimento da meta fiscal, mas já há no governo quem defenda queda mais acentuada em 2009. ''A meta de primário caminha para um segundo plano, junto com os conceitos do que se entende por tal'', diz Montero, referindo-se ao critério para calcular o superávit, excluindo as receitas e despesas do Fundo Soberano.
É importante salientar que nenhum analista, até mesmo os considerados ortodoxos, vê hoje um problema de solvência para o País, como existia, por exemplo, na crise de 2002, que antecedeu a eleição de Lula. O que eles chamam a atenção é para os riscos na expansão de gastos. ''No Brasil, as despesas transitórias acabam se tornando permanentes, o que é muito ruim quando se pensa a longo prazo'', observa Montero.
Fernanda Feil, analista da consultoria Rosenberg & Associados, lembra que a situação fiscal relativamente confortável do Brasil é uma das razões que explicam a maior resistência do País à crise global, na comparação com outros emergentes. ''É um fator que dá confiança ao investidor, que faz com que não tenhamos uma fuga de capitais'', argumenta.
Para John Welch, economista global do Banco Itaú, o BC terá mais espaço para derrubar a Selic se o governo ''não exagerar'' na política fiscal. Ele prevê que o juro básico estará em 9,75% em julho e aí ficará até dezembro. ''Mas pode até chegar a 9,5% no fim do ano.'' (L.M. e S.G.)

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