Meta da inflação deste ano ainda é dilema para BC
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domingo, 07 de abril de 2002
Fernando Dantas Agência Estado 
Nos últimos meses, o Banco Central (BC) empenhou-se em explicar para o mercado e a sociedade que nem todos os saltos nos preços devem ser combatidos com o aumento do juro básico (Selic). O juro tem efeito sobre a alta de preços que vem da demanda, quando a economia está aquecida. Mas, se a alta dos preços vem da oferta isto é, de bens cujos preços sobem independentemente do nível de consumo dos brasileiros , o certo, para o BC, é deixar que ela aconteça. O correto é só combater a propagação daquele aumento específico, que veio pelo lado da oferta, aos outros preços da economia. E mesmo esta tarefa pode ser feita gradualmente, evitando punir a economia com juros desnecessariamente altos.
Um exemplo de alta provocada pela oferta são os combustíveis, que variam de acordo com os repasses que a Petrobras faz das mudanças no preço internacional do petróleo e na taxa de câmbio. O nível de consumo dos brasileiros nada tem a ver com a história. Agora, os combustíveis estão subindo de novo, na esteira da alta do petróleo causada pelo conflito no Oriente Médio.
Há fortes indicações de que esta alta não é sustentável, mas a história recente mostra que prever o comportamento do petróleo é uma tarefa espinhosa, muito sujeita a erros. Se, por azar, o preço do petróleo se mantiver em um patamar salgado ao longo de 2002, o Banco Central corre o risco de se ver, pelo segundo ano consecutivo, diante de um dilema. Se segue à risca a sua teoria sobre a alta dos preços que vêm pela oferta, o IPCA, a meta de inflação, tem alguma chance de ultrapassar o máximo permitido de 5,5%. Se isto acontecer, o BC repetirá o desempenho de 2001, quando deixou a inflação superar o limite máximo de 6% o IPCA fechou em 7,67% no ano passado.
Por outro lado, se decidir manter a inflação abaixo dos 5,5% a ferro e fogo, para não dar a impressão de que a meta é só de mentirinha, o BC pode ser obrigado a inverter a trajetória da queda de juros, para provocar uma deflação nos demais preços da economia, que compense a alta dos combustíveis. Com isto, poderia haver, novamente, uma freada busca na recuperação econômica.
A maioria dos participantes do mercado financeiro aposta num meio termo. O BC não vai ignorar o teto de 5,5%, mas também não jogará a economia em recessão por causa dele. Em outras palavras, o afrouxamento dos juros pode se tornar mais lento ou até mesmo parar, em caso extremo, mas dificilmente será revertido.
Na verdade, o Banco Central ainda não está no sufoco no qual entrou em meados do ano passado, quando a maior parte do mercado já apostava que o teto da meta de inflação iria ser estourado. Hoje, a projeção média do mercado para o IPCA de 2002 é de 5,04%, abaixo, portanto, dos 5,5%. Mas ela vem subindo paulatinamente, junto com o preço do petróleo. No início do ano, o mercado previa um IPCA de 4,70% em 2002. Para alguns bancos, a projeção do IPCA já está esbarrando nos 5,5%. O CS First Boston (CSFB) está prevendo 5,4%.


