Consumidores que pretendem seguir a tradição nesta Páscoa, com ovos de chocolate e aquela bacalhoada caprichada no feriado da Semana Santa, devem se preparar para um gasto até 25% maior do que na mesma data no ano passado. A alta no preço do cacau e de outros alimentos importados elevou o custo da confraternização em família. Ainda assim, o comércio varejista mantém expectativa de 10% de aumento nas vendas em 2026.

Fatores climáticos adversos na África Ocidental, região produtora de 60% do cacau consumido no mundo, associados a questões operacionais e de mercado, fizeram o preço disparar, atingindo recordes históricos. Em relação a 2023, o cacau subiu mais de 300%, encarecendo a produção de chocolate.

Apesar do recuo no preço do insumo observado no momento, as fábricas tiveram que adquirir o cacau para a produção da Páscoa de 2026 no período de alta e o resultado são ovos de chocolate que chegam aos supermercados, em média, 25% mais caros do que no ano anterior.

Imagem ilustrativa da imagem Mesmo com alta de preços, vendas de Páscoa devem crescer 10%
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“As pessoas estão migrando para barras de chocolate e caixas de bombom e os ovos acabaram ficando mais para presente. São ovos considerados premium ou com brinquedos, para presentear as crianças”, comentou o superintendente da Apras (Associação Paranaense de Supermercados), Maurício Bendixen.

Mesmo sem aumento no volume dos estoques de ovos de chocolate e com os preços mais altos, varejistas do setor acreditam que os resultados nas vendas deste ano devem superar em cerca de 10% os números de 2025. Nessa conta entram também os bolos prontos, as colombas e outros itens produzidos especificamente para a Páscoa.

Segundo a Abicab (Associação Brasileira da Indústria de Chocolates, Amendoim e Balas), em 2026 a indústria aumentou em um milhão o número de ovos de chocolate fabricados, na comparação com o ano passado. Serão 46 milhões de unidades que estarão disponíveis nos pontos de venda em todo o país, alta de 2,22%. A produção começou em agosto e em razão do aumento no ritmo das fábricas, 50% a mais de vagas de trabalho temporárias foram abertas, saltando de 9.946 na Páscoa anterior para 10.558 neste ano. A expectativa é que 20% sejam efetivados.

O quadro de funcionários das indústrias precisou ser ampliado para colocar no mercado 803 itens sazonais, com 134 lançamentos. No ano passado, foram 611 produtos e 99 lançamentos. Com essa diversidade, os fabricantes esperam atender a diferentes faixas de consumo e aos gostos variados dos brasileiros. No topo da lista de preferências dos consumidores está o chocolate ao leite, mas há composições com mais ou menos cacau, mais ou menos açúcar e adição de frutas, castanhas e amendoim. “Nossas indústrias estão atentas às oscilações naturais do paladar do brasileiro e buscam atender a uma gama cada vez maior de consumidores, de todas as faixas salariais”, afirmou o presidente executivo da Abicab, Jaime Recena.

Suellen Gregório
Suellen Gregório | Foto: Divulgação

Em relação aos valores dos doces, o executivo lembrou que o cacau teve alta de 340%, a maior nos últimos 50 anos, e que o preço da tonelada do fruto na Bolsa de Nova York saiu de US$ 2,5 mil no início da crise mundial de produção, em 2023, para US$ 11 mil. Além do principal insumo, açúcar, leite e frete também subiram e impactaram o preço final dos chocolates nesta Páscoa.

Entre os outros produtos bastante consumidos nesta época, o bacalhau se destaca entre os mais caros. Os preços variam conforme o tipo de peixe e o corte, mas nos supermercados estão entre R$ 100 e R$ 300 o quilo, embora alguns ultrapassem essa faixa. “O bacalhau teve alta entre 9% e 13% nos últimos 12 meses”, destacou o presidente da Apras.

Os vinhos europeus, perfeitos para acompanharem a bacalhoada, também tiveram aumento de preços desde o ano passado. Mas se a intenção é economizar, os vinhos argentinos são uma opção mais em conta. Com a crise no país vizinho, o preço da bebida produzida nas vinícolas argentinas baixou.

A boa notícia é o azeite, que depois de acumular aumento significativo nos últimos anos, começou a diminuir de preço no segundo semestre de 2025 e agora está mais fácil de encaixar no orçamento. Além de pesquisar antes de comprar, uma dica para conseguir esticar o dinheiro é ficar de olho nas promoções realizadas pelos supermercados. “Tem redes que vendem pelo aplicativo e fazem promoções do tipo leve três, pague dois”, lembrou Bendixen.

Produção artesanal aposta na qualidade, inovação e personalização

Para quem vive da confeitaria, a Páscoa é a data mais importante e mais rentável do calendário e a produção artesanal cresce no Brasil a cada ano, consolidando-se como uma alternativa competitiva à indústria tradicional. Dados oficiais do setor apontam que, em 2024, os ovos artesanais representavam 35% das intenções de compra.

Se as pequenas e médias empresas não conseguem concorrer com as grandes fabricantes de chocolates em volume, a aposta é na qualidade da matéria-prima, na adaptação do cardápio e na inovação de sabores bem ao gosto da clientela.

A prova de que essa estratégia funciona é o ritmo acelerado nas cozinhas das confeitarias entre o final de março e o começo de abril. As equipes trabalham em sua capacidade máxima para dar conta do aumento da demanda e em algumas delas, funcionários extras foram contratados.

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A alta do cacau e a queda da qualidade de muitos produtos fizeram a confeiteira Suellen Gregório, da Suellen Gregório Doces Finos, investir na produção do próprio chocolate. No processo, denominado bean to bar, que significa do grão à barra, o principal insumo dos itens de Páscoa é produzido artesanalmente, controlando todas as etapas, desde a seleção das amêndoas de cacau até o produto final. O grande diferencial é o uso de poucos ingredientes no preparo. “Isso nos dá mais controle da qualidade e também ajuda a equilibrar melhor os custos, sem precisar baixar o padrão.”

Além de fabricar o chocolate, a confeiteira promoveu ajustes para evitar desperdícios na produção, negociou com fornecedores e organizou melhor as compras. “Também demos uma enxugada no cardápio, focando mais no que tem melhor saída e faz mais sentido para a gente, mas sempre sem mexer na qualidade”, afirmou Gregório. “Não faz sentido substituir ingrediente e perder padrão.”

Com as mudanças, a expectativa de faturamento nesta Páscoa é positiva, com aumento esperado entre 10% e 20% sobre o ano passado. As vendas já começaram e, segundo a confeiteira, o ticket médio por cliente varia de R$ 150 a R$ 200. “Temos uma demanda equilibrada, mas os itens de maior valor agregado têm se destacado mais. Muitos clientes preferem comprar menos, porém, com mais qualidade. Os ovos com casca recheada são sempre os mais procurados, pois são artesanais, com recheios puros, sem saborizantes ou conservantes.”

A confeiteira também apostou em combinações mais autorais, como a adição de frutas tropicais liofilizadas ao chocolate, e novos formatos de kits. “Também reforçamos nossa proposta de chocolate bean to bar, o que agrega mais valor ao produto.”

Para dar conta do aumento do ritmo da produção, Gregório ampliou a equipe no final do ano passado, com a contratação de mais uma confeiteira, e neste período, deverá recorrer à ajuda de freelancers. “A Páscoa é o momento mais intenso do ano, então planejamento e apoio são fundamentais para manter o padrão de qualidade e os prazos.”

Isabela Yenes
Isabela Yenes | Foto: Roberto Custódio

Na Isabela Yenes Chocolatier, oferecer produtos de boa qualidade também é a principal preocupação, mas em razão da alta dos insumos que vem sendo observada desde o início de 2025, nesta Páscoa foi preciso fazer modificações. Algumas receitas foram reinventadas, o mix de produtos foi repensado, com a inclusão de inovações no cardápio, e em alguns itens, a quantidade de chocolate utilizada diminuiu. “Não optamos por usar outros produtos ou fazer inclusões para render. Uma casca de ovo que era mais grossa, deixamos mais fina, e fizemos algumas mudanças, substituindo o chocolate importado que usávamos por um chocolate nacional de boa qualidade. Isso, para não impactar tanto para o consumidor final”, comentou Yenes.

O aumento de preços das matérias-primas associado a uma preocupação maior com a saúde e a forma física, disse a chocolatier, vêm provocando mudanças no comportamento dos consumidores. Esses dois fatores, apontou ela, devem contribuir para manter as vendas no mesmo patamar do ano anterior, sem grandes variações. E foram essas também as principais razões que a fizeram remodelar o cardápio em 2026. “Nosso ovo de Páscoa tem 600 gramas, é super recheado. Uma alternativa neste ano é fazer o mesmo ovo, mas em dois sabores. Assim, uma pessoa pode comprar em conjunto com o marido, por exemplo, e cada um come uma parte.”

Entre as novidades introduzidas no catálogo de Páscoa, estão o sabor Lotus Biscoff, biscoito belga caramelizado que é uma das novas febres na confeitaria, e o ovo em fatias, que oferece seis sabores diferentes em um só produto. “Nossos clientes procuram, geralmente, a parte de lembrancinhas para presentear familiares, professores, e os itens de maior valor vão para consumo próprio ou para presentear namorados, maridos e esposas”, contou Yenes. Na loja, o gasto médio por cliente fica em torno de R$ 250 a R$ 300.(S.S.)

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