Mesbla quer credores como acionistas
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quarta-feira, 27 de novembro de 1996
Cláudia Lopes 
A Mesbla está tentando converter sua dívida em capital. Para colocar o programa de recuperação da companhia em prática, o executivo José Paulo Amaral faz corpo a corpo com os credores da rede a fim de convencê-los a assinar um termo de adesão, concordando com a transformação de suas dívidas em ações da Mesbla. Amaral reuniu-se, ontem, com 27 credores de Londrina que têm, juntos, R$ 4,7 milhões para receber. Desde a última quinta-feira, ele participou de oito reuniões com cerca de 200 credores em cidades como Blumenau, Brasília, Vitória e Curitiba. Caso concordem com a operação, os credores têm prazo de cinco dias para devolver o termo de adesão assinado à matriz da Mesbla.
O objetivo é fazer com que os 1,6 mil credores da rede passem a ser acionistas em troca das dívidas. A única chance para evitar a falência da companhia é que 100% dos credores aceitem converter os créditos em ações, enfatiza Amaral. Contratado pelo BCN, Unibanco e Pontual - os três maiores credores da Mesbla que têm juntos R$ 200 milhões para receber - José Paulo Amaral assumiu junto com o Banco Pactual, no dia 11 de outubro, a missão de tentar recuperar a companhia. A Mesbla entrou em concordata em junho do ano passado, obtendo um prazo de dois anos para saldar uma dívida de R$ 230 milhões. Embora a primeira parcela tenha vencido em agosto deste ano, a companhia só conseguiu depositar R$ 15 milhões.
A Mesbla começou a ter problemas financeiros há cerca de seis anos. Depois da concordata, continuou a ter prejuízo. Hoje, a dívida total é de R$ 785 milhões, diz Amaral, que deve promover cerca de 30 reuniões com credores até o próximo dia 27 em todo o Brasil. Ele tem prazo de 120 dias para tentar evitar a falência da Mesbla.
Para isso, além da adesão dos credores, precisamos da colaboração do governo, garante Amaral. A dívida que a empresa tem com o governo, que soma R$ 230 milhões em impostos federais e estaduais, não pode ser convertida em ações. Para salvar a Mesbla, precisaremos renegociar os impostos atrasados.
Amaral vai tentar dilatar o prazo de pagamento destes impostos. Temos necessidade de obter cerca de três anos de carência, com juros subsidiados, para depois conseguir um prazo de mais 15 anos para quitar os impostos. Isso valerá só para os impostos que já estão atrasados, explica.
Otimista, Amaral vê saída para a crise. Até agora, todos os credores consultados se mostraram muito receptivos. Eles sabem que a única forma de tentar receber as dívidas é evitando a falência, diz. Se conseguirmos a transformação da dívida em capital, vamos concentrar forças para erguer a Mesbla.
Ele conta que a rede está liquidando seu estoque, oferecendo até 50% de desconto, para dar lugar a novos produtos. A intenção é trabalhar com produtos de melhor qualidade e com preços menores. Atualmente, a maioria de nossas mercadorias são inadequadas. Isso aconteceu porque na hora da compra, como a Mesbla não tinha crédito, foi obrigada a abrir mão de seu perfil, comprando de quem se dispunha a vender para a rede.
Segundo Amaral, a estratégia é valorizar as ações da Mesbla na bolsa de valores. A partir do zeramento da dívida, começa a valorização. A previsão é que daqui a três anos os credores possam vender suas ações na bolsa, recuperando entre 60% a 90% do prejuízo.
Com a entrada do novo capital, Amaral explica que o capital atual da Mesbla será diluído. Como hoje as ações não valem nada, todos os atuais acionistas - inclusive a família De Botton, com 51% das ações da companhia - passarão a ter uma participação pequena, segundo ele. Juntos, devem ficar com cerca de 2% de participação enquanto os novos acionistas ficam com 98%, diz. Os atuais acionistas concordaram porque perderiam a Mesbla de qualquer jeito. Pela diluição ou falência. Como não havia outra alternativa, eles se afastaram para deixar os três maiores credores tentarem salvar a companhia, evitando o fechamento de 44 lojas e a demissão de seis mil funcionários.


