Agência Estado
De Montevidéu, Uruguai
Representantes dos quatro governos do Mercosul se reúnem a partir de hoje, na capital uruguaia, no meio da maior crise vivida pelo bloco regional desde sua criação, em 1991. A tensão entre Brasil e Argentina se mantém elevada, embora o presidente Carlos Menem tenha renunciado a aplicar contra os parceiros as salvaguardas permitidas pela Associação Latino-americana de Integração (Aladi).
O governo brasileiro, informam funcionários diplomáticos, se mantém disposto a contestar as barreiras argentinas à importação de produtos têxteis, baseadas no Acordo sobre Têxteis e Vestuário (ATV). Este acordo é válido no âmbito da Organização Mundial do Comércio (OMC). Ao extenso contencioso entre os dois países pode ainda somar-se uma nova medida contra as importações de calçados. A Secretaria de Indústria e Comércio do governo argentino tem pronta uma resolução para dificultar a entrada de sapatos estrangeiros. Se a resolução for adotada, o produto deverá ser acompanhado de uma grande lista de informações técnicas, para certificação.
O governo uruguaio, neste semestre exercendo a Presidência do Mercosul, levará à reunião uma proposta para reforçar a ‘‘institucionalidade do Mercosul’’, com a criação de normas e mecanismos capazes de evitar o acúmulo de tensões perigosas. Insistirá também na criação de um secretariado técnico, idéia apresentada na reunião presidencial de dezembro, no Rio de Janeiro. O ministro de Relações Exteriores, Didier Opertti, descartou a idéia de o Uruguai exercer, na atual crise, a função de mediador entre Brasil e Argentina. O país participará dos encontros de hoje e amanhã, segundo Opertti, como anfitrião, presidente e sócio pleno do Mercosul.
Informalmente, porém, o presidente Julio María Sanguinetti vem trabalhando para a superação da crise e para a manutenção do bloco. Publicamente, o chanceler do Uruguai tem procurado reduzir as atuais divergências a questões de conjuntura. Esses problemas, segundo seus argumentos, apenas realçam a conveniência de harmonizar as políticas.
O governo uruguaio, como já fez o argentino, está em negociações bilaterais com o México, para ampliar o acordo de liberalização comercial de 1987. Mas o maior comércio do Uruguai, apesar do baixo nível de atividade no Brasil e na Argentina, continua a ser o Mercosul. O Brasil absorve cerca de 35% das exportações uruguaias.
Os encontros previstos para hoje e amanhã - primeiro do Grupo Mercado Comum, em nível técnico, e depois do Conselho de Ministros - foram descritos por um jornal uruguaio como ‘‘a batalha de Montevidéu’’. Trata-se de um exagero, segundo funcionários brasileiros, mas eles mesmos logo reconhecem a gravidade excepcional desta crise.

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