Os países do Mercosul voltaram a reafirmar que o tema agrícola será prioridade nas negociações comerciais com os países da União Européia. ‘‘Não vamos renunciar aos nossos interesses agrícolas em um futuro acordo comercial com a Europa’’, disse ontem o ministro de Relações Exteriores do Brasil, Luiz Felipe Lampreia, durante o encerramento da a Cúpula Econômica do Mercosul, organizada pelo World Economic Forum. Para os observadores, a medida beneficiará a agricultura de exportação do Brasil e Argentina, principalmente soja e carne.
Diante de uma platéia de cerca de 500 executivos de grandes conglomerados industriais e executivos de multinacionais, Lampreia afirmou que embora a França tenha uma postura protecionista nesse setor, a Europa tem conhecimento dos interesses da região. ‘‘Espero que os europeus não abandonem ou transformem a América Latina apenas em uma opção secundária, já que os interesses comerciais são mútuos’’, acrescentou.
Atualmente, a União Européia é o principal parceiro comercial e o maior investidor direto do Mercosul. Os europeus absorvem, por exemplo, 31% das exportações totais da região. Desde a criação do bloco econômico do Cone Sul, em 1991, as vendas européias cresceram ainda 300%, enquanto as exportações brasileiras, argentinas, paraguaias e uruguaias para a Europa aumentaram apenas 25%.
Lampreia acredita que durante a reunião de cúpula marcada para junho, no Rio de Janeiro, será possível lançar as negociações para a criação de uma zona de livre comércio entre os dois blocos. ‘‘É possível chegar a um acordo. Dependerá apenas das diretrizes que devem ser aprovadas pela Comissão Européia’’, acrescentou o chanceler chileno, José Miguel Insulza.
O ministro Lampreia reafirmou ainda que, desta vez, o tema agrícola não ficará diluído, a exemplo do que ocorreu durante a Rodada Uruguai do Gatt, que deu origem à Organização Mundial do Comércio (OMC). Além do protecionismo europeu, os subsídios agrícolas também foram duramente criticados pelos membros do Mercosul.
O ministro argentino de Relações Exteriores, Guido di Tella, disse que os subsídios europeus ao setor são sustentados por ‘‘gente rica’’. E ele foi mais longe ainda: ‘‘Nós também fomos ricos, e, quando deixamos de sê-lo, nos tornamos mais sensatos.’’ Di Tella acredita que o Mercosul terá pela frente uma fase dura de negociações para chegar a um acordo comercial com a Europa.

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