Bloco latino-americano tem trajetória de problemas. Teste de fogo aconteceu em janeiro de 99, quando Brasil desvalorizou o real. Agora, Argentina tenta evitar grave recessão e Paraguai enfrenta caos político
O Mercosul completa dez anos hoje afundado na crise, como se tornou praticamente uma rotina ao longo de sua história. A ameaça de estagnação econômica na Argentina, a instabilidade política no Paraguai e problemas no comércio entre Brasil e Uruguai lançam dúvidas sobre a coesão do bloco, justamente quando a união é necessária para enfrentar a posição dos Estados Unidos na formação da Área de Livre Comércio das Américas (Alca).
A crise subiu de tom nesta semana, com o anúncio, pela Argentina, de que vai modificar a estrutura tarifária do país. A Argentina vai zerar a tarifa de importação de máquinas vindas de países de fora do bloco, como forma de incentivar o investimento no país. Ao mesmo tempo, a taxação sobre o ingresso de bens de consumo será elevada, para proteger a produção nacional.
O Brasil manifestou apoio, mas anunciou que vai propor uma reunião extraordinária do Grupo do Mercado Comum do Mercosul para analisar o assunto. ‘‘Qualquer alteração na Tarifa Externa Comum tem repercussões no Mercosul e no plano internacional’’, disse o ministro das Relações Exteriores, Celso Lafer.
Apesar das dificuldades, nenhum especialista consultado pelo Estado tem dúvidas de que o Mercosul continuará existindo. Eles identificam a crise Argentina como uma dificuldade momentânea e lembram que o bloco sobreviveu a seu mais duro teste, em janeiro de 1999. Naquele mês, o Brasil abandonou o regime de câmbio administrado e deixou a cotação do dólar flutuar, atingindo em cheio a competitividade das exportações do país vizinho.
Para eles, a dúvida é se o bloco continuará restrito à sua identidade como um projeto político ou se ele também exercerá um papel-chave no crescimento dos sócios. Há uma certa frustração quanto ao impacto econômico do projeto. ‘‘O Mercosul hoje não é o que se imaginava de início, algo que traria um tremendo crescimento para os países associados’’, afirmou o ex-secretário de Política Econômica do Ministério da Fazenda José Roberto Mendonça de Barros. O vice-presidente da Confederação Nacional da Indústria (CNI), Osvaldo Douat, lamenta que, nesses dez anos, ‘‘não foram construídos os fundamentos para a formação de uma aliança estratégica’’ entre os empresários.
Os números da balança comercial mostram que o Mercosul ampliou as exportações do Brasil. Em 1990, as vendas para os sócios eram de US$ 1,320 bilhão, de acordo com dados do Ministério do Desenvolvimento. Dez anos depois, chegaram a US$ 7,733 bilhões, uma expansão de 485,8%. Nesse mesmo período, as exportações brasileiras como um todo aumentaram 75,3%, o que demonstra que Argentina, Paraguai e Uruguai cresceram de importância como destino para os produtos brasileiros.
‘‘O passado foi bem’’, disse o secretário de Assuntos Internacionais do Ministério da Fazenda, embaixador Marcos Caramuru. ‘‘O futuro depende de uma série de reflexões estratégicas.’’ A principal questão proposta pelo embaixador é: ‘‘a mesma credibilidade que gerou o aumento no fluxo comercial se incorporou à estratégia empresarial num sentido mais amplo, não só com relação às vendas, mas também com relação aos investimentos?’’
Em outras palavras, o que ele quer saber é se alguma empresa fez planos específicos de crescimento por causa do Mercosul. E, se não fez, por quê. Ele não deixa de questionar até mesmo se a estratégia de formar o bloco não estaria errada. ‘‘O Mercosul não foi feito por outra razão do que dar ao setor empresarial um mercado protegido’’, lembrou.
José Roberto Mendonça de Barros não tem dúvida: as empresas não têm uma estratégia voltada para o Mercosul. ‘‘E as que tiveram, como é o caso do setor automotivo, já não têm mais.’’ Segundo Caramuru, o Mercosul foi formado porque Brasil, Argentina, Paraguai e Uruguai constataram que seria inevitável abrir suas economias.
Assim, o objetivo foi dar aos empresários uma área protegida, dentro da qual pudessem experimentar um maior nível de liberalização econômica. ‘‘Elas criariam musculatura para um mercado mais amplo’’.
Dez anos depois, o vice-presidente da CNI resumiu: a idéia não avançou porque os sócios estiveram sempre envolvidos em crises de tamanhos variados. No início da década de 90, os dois principais integrantes do bloco estavam mergulhados na inflação, por isso o Mercosul era um projeto muito mais político do que econômico.
Em meados da década, com as economias da região estabilizadas, o Mercosul atravessou um período de tranquilidade e crescimento. A calma foi interrompida pela crise no Sudeste asiático, em 1997, da Rússia, em 1998, e culminou com a crise brasileira, em 1999. Toda essa turbulência impediu que se criasse um planejamento empresarial de longo prazo, uma política industrial conjunta.
A adoção do câmbio flutuante pelo Brasil, enquanto a Argentina permaneceu com sua moeda fortemente atrelada ao dólar, lançou o Mercosul em sua crise mais profunda, dizem técnicos do governo. E os desafios não acabaram.

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