Mercosul esgota diplomacia para conflitos
Vladimir Goitia
Agência Estado
De São Paulo
A via diplomática não serve mais para resolver os conflitos técnicos e comercias do Mercosul, já que ela se transformou em um vício, herdado dos primeiros anos de integração, período em que foi eficaz porque os problema eram de cunho político. A conclusão é de economistas da Fundação Capital, um dos escritórios de consultoria mais conceituados da Argentina.
O documento, enviado ao presidente eleito da Argentina, Fernando de la Rúa e obtido com exclusividade pela Agência Estado, conclui que, hoje, a via diplomática mostrou-se claramente inadequada, já que os conflitos são totalmente técnicos. Dizer que o Mercosul está em crise há algum tempo deixou de ser novidade, agora é necessário quantificar que os efeitos dessas tensões no bloco provocaram uma queda de 28% no comércio regional apenas no primeiro semestre deste ano, acrescenta o documento.
Os economistas da Fundação Capital afirmam que é necessário deixar de lado as posturas de ação e reação, utilizadas durante a crise entre o Brasil e a Argentina e propor mecanismos preventivos que poderiam ser disparados automaticamente, como órgãos de solução de controvérsias ou até normas ou medidas compensatórias. O Mercosul estará com os dias contados se os países continuarem apelando para a lei de Talião, diz o documento, e acrescenta que a vontade política é ainda necessária mas não é mais suficiente para a consolidação da integração dos quatro países membros.
As perspectivas de consolidar a integração do Mercosul no próximo ano são melhores do que nos últimos dois anos, período em que o contexto político e econômico foi totalmente desfavorável, alerta o documento. A Fundação Capital lembra que, no próximo ano, não há mais eleições para cargos executivos e, além disso, está previsto um moderado crescimento econômico regional. É uma oportunidade histórica a ser aproveitada, mas é necessário levar em conta que, dificilmente, o Mercosul sobreviverá se a crise se estender por mais um ano, seja por desconfiança externa ou por causa da resistência de políticas internas insustentáveis, diz o documento.
A Fundação Capital recomenda o uso da experiência européia (white paper de 1985) para celebrar um pacto de fortalecimento entre os parceiros, com um cronograma previsto e com compromissos explícitos que possibilitariam um relançamento do Mercosul. Para os economistas argentinos, é de extrema urgência chegar a um consenso no tema do regime cambial, mesmo que este venha a ser lento em caso de uma convergência entre as políticas de cada país. Para eles, esse seria o primeiro passo para chegar a uma convergência macroeconômica, a exemplo do processo de integração européia.
Os acordos setoriais alcançados pelos calçadistas e indústria de papel do Brasil e da argentina foram considerados desgastantes, de negociação atomizada e de final incerto pela Fundação Capital. Para a consultoria, embora esse acordos tenham servido para atenuar a crise entre os dois países, eles não servem de forma alguma como estratégia de consolidação definitiva.
As limitações desse mecanismo ficam evidentes diante da falta de respostas a perguntas obvias, afirmam os economistas argentinos. O que vai ocorrer nos setores onde os empresários não cheguem a um acordo? ou Como será a negociação em aqueles setores onde um dos países conta com vantagens competitivas sobre o outro?, indagam.
Esta semana, em Montevidéu, o Grupo Mercado Comum (GMC), do qual fazem parte os principais técnicos e negociadores dos quatro países, vão discutir justamente esses temas. Até o dia da reunião de cúpula, marcada para o dia 8 de dezembro, os negociadores terão de encontrar respostas para algumas dessas perguntas.





