Belo Horizonte Os chanceleres do Mercosul mostraram ontem, em Belo Horizonte, a disposição de deixar para trás as diferenças entre Brasil e Argentina, a fim de fortalecer a posição do bloco nas negociações comerciais internacionais. O Brasil parece ter se conformado com a possibilidade de a Argentina aplicar salvaguardas para proteger sua indústria contra uma ''invasão'' de produtos do poderoso vizinho.
''Não consideramos que as salvaguardas sejam a melhor solução, mas não damos um 'não' categórico porque há setores brasileiros interessados'', disse o chanceler brasileiro Celso Amorim, acrescentando que a medida também poderá ser adotada ''quando houver problemas com os produtos argentinos''. A proposta de Buenos Aires gerou uma avalanche de críticas de industriais brasileiros contra uma medida considerada ''protecionista'' e contrária ao espírito do Mercosul.
O Conselho Mercado Comum (CMC, formado por ministros e chanceleres) decidiu admitir como membros associados (com acordos de livre comércio, mas sem fazer parte do pacto aduaneiro) Equador, Colômbia e Venezuela, que se juntam a Bolívia, Chile e Peru. Serão firmados, além disso, acordos de livre comércio com a Índia e os países da África Austral.
A reunião permitiu que se apresentasse ''uma visão clara de uma região aberta às grandes negociações multilaterais, na OMC, com os países em desenvolvimento, com a União Européia, nas Américas'', proclamou Amorim. ''Temos problemas, mas são problemas de crescimento'', disse, recordando a recente cúpula de Cuzco (Peru), na qual os doze países da América do Sul decidiram formar uma Comunidade Sul-Americana de Nações. ''O Mercosul se expande, se consolida internamente e se abre ao mundo'', assegurou.
Os chanceleres não conseguiram, no entanto, encerrar as discussões sobre o fim da dupla cobrança de tributos em relação aos produtos importados que circulam pelos países do bloco, mas, segundo Amorim, as discussões prosseguirão hoje. As restrições vêm do Paraguai, um país sem portos marítimos, cujas importações por via terrestre e fluvial transitam obrigatoriamente pelo território de algum de seus vizinhos.
Caso a dupla tributação seja suprimida, Assunção exige receber uma parte das tarifas cobradas por seus sócios para não perder esta importante fonte de renda. ''Vai ser muito difícil chegar a uma etapa posterior sem o cumprimento dos condicionamentos, que são três: um código aduaneiro comum, a informatização de nossas aduanas e, sobretudo, o mecanismo de distribuição equitativa da renda aduaneira'', disse a ministra paraguaia de Relações Exteriores, Leila Rachid.
Os presidentes que chegaram anteontem a Belo Horizonte aproveitaram a tarde para ter encontros bilaterais. Um dos primeiros foi o de Luiz Inacio Lula da Silva com o venezuelano Hugo Chávez, que antes de entrar na reunião afirmou que a América do Sul está se convertendo num ''pólo de força econômica, política, social e histórica''.

mockup