Da Redação
Este início de ano é marcado pela busca de alternativas para financiar a produção, dentro de nova realidade em que o centro de tudo é o mercado e não mais o orçamento do governo, como ocorria até 10 anos atrás. Os anos 90 foram marcados por uma profunda transformação na economia brasileira. A queda de barreiras e a redução das alíquotas de importação, juntamente a desregulamentação dos mercados, alterou de forma profunda a sistemática produtiva nacional.
Segundo análise de ‘‘Safras & Mercados’’ esta semana, os reflexos dessa política se estendem até hoje. Especificamente no caso café, a extinção do Instituto Brasileiro do Café (IBC) deixou os produtores de certa forma desnorteados, uma vez que este órgão era responsável pela política comercial do produto. O resultado imediato foi a total perda de parâmetros. A fragilidade do setor produtivo promoveu, então, uma forte queda nas cotações.
No entanto, passado este primeiro impacto e após um processo natural de seleção, o resultado final foi a maior profissionalização da cadeia café, principalmente na ponta produtora, observam analistas de Safras & Mercados.
Ao contrário do que acreditavam os operadores o setor saiu fortalecido. Houve uma melhora nas técnicas produtivas, com destaque para a redução nos custos. Em última análise formou-se os alicerces necessários para a renovação e ampliação do parque cafeeiro nacional em moldes muito mais competitivos.
Em outras palavras, a primeira etapa no processo de modernização produtiva, pode-se dizer que foi alcançada e com sucesso. O país chega ao final da década com uma estrutura produtiva e comercial bem mais enxuta.
O produtor encontra-se, atualmente, menos dependente da atuação do
governo. Outro ponto importante, foi a significativa melhora na
qualidade, resultando em uma maior segmentação da oferta. Isto deve ser
uma tendência comercial daqui para frente, pois é cada vez mais comum a
utilização, pelos produtores brasileiros, dos selos de procedência,
buscando diferenciar seu produto dos demais. Ainda existe muito espaço
para avançar, principalmente, no que diz respeito a melhora da imagem do
produto no exterior. Mas sem dúvida o café saiu fortalecido, em meio a toda esta mudança.
Entretanto, as medidas anunciadas pelo governo brasileiro recentemente fazem parte deste processo. A dificuldade de fazer frente às demandas dos produtores em relação a crédito e linhas de financiamento, tem levado o governo a procurar instrumentalizar o próprio mercado para que cumpra estas exigências. Trata-se de um tendência global, que no país toma ares extremistas dado à situação caótica das contas públicas. As medidas, em si, não tem um impacto de curto prazo sobre a produção. Isto explica a pequena repercussão sobre os meios produtivos. Mas confirmam o que já vinha sendo sinalizado faz tempo, ou seja, a vontade do governo de romper parte das amarras com o setor produtivo. No caso, busca transferir para agentes financeiros pouco a pouco a incumbência de fornecer crédito, bem como tenta dar suporte a uma maior agilidade nas transações e no intercâmbio entre o setor produtivo, industrial, exportador e financeiro. Devendo retirar-se lentamente do processo.
Entre as medidas de maior impacto para o mercado de café estão: primeiramente a liberação para a entrada de estrangeiros nos mercados futuros, que deve trazer maior liquidez a estas movimentações.
Outra aspecto é a criação da Cédula do Produtor Rural financeira (CPR
financeira). Este papel facilita a venda antecipada da safra, devido a maior possibilidade de negociação em mercado secundário, uma vez que não há necessidade da liquidação física do contrato. Aumenta assim o interesse de agentes financeiros, o que deve trazer um maior dinamismo as negociações destes títulos, favorecendo, por sua vez, a absorção de recursos por parte do setor produtivo. Outra coisa é a CPR-Exportação.
Esta cédula destina-se a captação de recursos no externo, principalmente junto a empresas importadoras. Pois mantém a exigência de entrega físico
Estes instrumentos - segundo análise de Safras & Mercado, devem promover uma nova guinada no mercado. O interesse de agentes financeiros não ligados ao setor produtivo e exportador, deve crescer, alterando o perfil das movimentações, inaugurando uma nova etapa no processo de crédito ao produtor. Além disto, amplia-se as possibilidades para o escalonamento da comercialização, através de operações futuras, os chamados ‘‘hedging’’ de venda. O café reúne as condições necessárias para atrair o interesse do investidor. A interferência do governo é pequena e os preços são extremamente voláteis, dado o elevado grau de incerteza que cerca as movimentações. Falta ainda uma atuação mais pesada dos participantes do mercado, ou seja, produtores, distribuidores e processadores. Pois, isto garante uma melhor correlação entre o mercado físico e os futuros. Assim, a Bolsa de Mercadorias e Futuros (BM&F) tenderia a refletir de uma forma mais clara a situação no mercado físico interno, facilitando ainda mais as operações.
Restam ainda muitas dúvidas em relação ao impacto destas mudanças sobre o
setor produtivo, que por vezes fica alheio a estes tipos de oscilações importância neste tipo de operação, pois fornecem liquidez ao mercado. (Fonte: Safras & Mercados/Sala de Agronegócios).