Agência Estado
De São Paulo
Se havia ainda algum sangue frio no mercado de câmbio, ontem sumiu. As mesas de operação foram tomadas por uma onda de nervosismo, que fez a cotação do dólar chegar à máxima de R$ 1,7850 no final da tarde. A moeda encerrou o dia cotada a R$ 1,7790, em alta de 1,14%, maior preço de fechamento desde 22 de fevereiro. Segundo operadores, a lista dos fatores que geraram a pressão sobre o dólar foi desde fluxo negativo até o cenário externo, passando por preocupação com questões domésticas. ‘‘Hoje, o dólar subiu com consistência e não apenas por movimentos especulativos’’, afirma um profissional.
Analistas afirmam que o principal motivador da alta de ontem teria sido uma operação de compra de dólares. O volume, segundo comentam profissionais, estaria entre US$ 400 milhões e US$ 500 milhões. A informação que circulou foi de que esse montante teria sido adquirido pelo Tesouro Nacional para fazer caixa, a fim de cumprir compromissos externos que vencem em abril. A operação de compra teria envolvido dois bancos: um privado e o Banco do Brasil. A assessoria de imprensa do BB, questionada sobre esse comentário, afirmou que a atuação da instituição no mercado ontem ‘‘foi de absoluta normalidade, atendendo apenas a seus clientes’’.
Mesmo nos dias de maior nervosismo com o cenário externo, a moeda norte-americana não teve fôlego para ultrapassar esse limite. Afinal, os bons indicadores macroeconômicos, que têm gerado fluxo positivo de recursos, suavizaram nos últimos dias os efeitos da queda do Nasdaq no País. ‘‘O dólar abaixo de R$ 1,75 não é saudável para a economia, sobretudo sob o ponto de vista da balança comercial’’, reforça um operador.
Internamente, também pesou no humor do mercado o impasse no julgamento pelo STF dos pedidos atualização das contas do FGTS com base em expurgos inflacionários ocorridos em planos econômicos passados. Se o governo perdesse em todos os pontos, o prejuízo para as cofres públicos poderia chegar a R$ 80 bilhões. Essa possibilidade é muito remota, mas há chances de derrotas parcias. No início da noite, no entanto, o ministro Maurício Corrêa pediu vista ao processo, o que provocou o adiamento do julgamento por, pelo menos, um mês (leia nesta página).
Por fim, a queda do Nasdaq ainda causa calafrios. A turbulência no mercado doméstico acabou deixando o ambiente mais vulnerável ao noticiário externo. Ontem, parece ter sido acentuado o temor de que a continuidade da queda das ações em Wall Street possa afetar o fluxo de capitais – inclusive o que seria destinado ao Brasil.
Os investidores em bolsas jogaram a toalha ontem. A Bovespa recuou 5,03%, para 15.500 pontos (mínima do dia) depois de registrar alta de até 1,73% pela manhã. Foi a segunda maior queda em porcentual do ano, só superada pelo tombo registrado em 4 de janeiro (-6,37%). Em pontos, no entanto, a baixa de ontem não teve precedentes em 2000. O volume financeiro no mercado paulista somou R$ 689 milhões.
A forte alta do dólar foi o ingrediente que faltava para o mercado de juros futuros ingressar, novamente, no clima de nervosismo. A projeção da taxa de juros para outubro ultrapassou novamente a casa dos 19% (encerrou o dia a 19,227%).

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