O pessimismo com a Argentina voltou a contagiar o mercado brasileiro. O dólar comercial operou ontem como uma montanha-russa durante o dia e fechou em novo recorde, com alta de 2,12%, vendido a R$ 2,5530 – ignorando nova venda de
moeda feita pelo Banco Central no mercado à vista à tarde. A deterioração dos indicadores de confiança argentinos e o rebaixamento pela Standard & Poor’s dos ratings da maioria dos bancos argentinos, ‘‘como resultado direto de ação similar com os ratings soberados da República Argentina’’, jogaram a cotação do dólar no pior momento do dia para a máxima de R$ 2,585, em alta de 3,40%. O humor piorou também com o anúncio da Moody’s de que está monitorando a reação dos argentinos para mudar o rating do país.
A moeda norte-americana desacelerou seu ganho à tarde, conforme a recuperação dos indicadores e o tom das notícias vindas da Argentina. Informações davam conta de que o ministro de Economia da Argentina, Domingo Cavallo, estaria negociando um financiamento especial de US$ 5 bilhões com algum organismo internacional ou com um grupo de bancos.
A expectativa do mercado é de que, se forem confirmadas, essas novas medidas possam dar alguma sobrevida à Argentina. Isso porque a forte rejeição política ao pacote de corte de gastos anunciado quarta-feira à noite por Cavallo aumentou o temor de um default (calote) iminente ou desvalorização cambial. Esse sentimento ficou evidenciado com a disparada do risco país acima de 1.500 pontos base e o escorregão do brady FRB, que contaminou o C-Bond brasileiro.
Segundo profissionais do mercado, o leilão de papel cambial realizado ao meio-dia pelo Banco Central também atendeu em boa medida à procura por hedge de empresas e tesourarias de bancos, diminuindo em parte a pressão compradora no mercado à vista à tarde. No mercado à vista, o dólar oscilou 2,38%, entre a mínima de R$ 2,525 (+1%) e a máxima de R$ 2,585 (+3,40%). Neste mês, o comercial está acumulando ganho de 10,42% frente ao real e, em 2001, de +30,86%.
Mais uma vez, o mercado de juros viveu uma manhã de estresse, precificando a iminência de um default argentino. Contribuiu para reduzir a sensação de desespero os comentários de que bancos estrangeiros estariam dando liquidez às suas filiais na Argentina.
Os juros futuros voltaram a subir na BM&F. A maior parte das instituições financeiras acredita que o Comitê de Política Monetária (Copom) deve aumentar a taxa Selic (hoje em 18,25%) em cerca de dois pontos porcentuais na sua próxima reunião – que começa dia 17 e termina dia 18. Mais do que isso poderia causar um estrago despropositado na atividade econômica, avaliam os analistas. O DI agosto projeta agora juros de 22,70%, ante 21,97% de anteontem.
O mercado acionário brasileiro resistiu bravamente à deterioração do cenário argentino ontem. O índice Merval, da Bolsa de Buenos Aires, chegou a cair 13,46% pela manhã. No seu pior momento, no entanto, o Ibovespa recuou apenas 1,27%, e acabou fechando com alta de 0,73%. A Bolsa argentina caiu 8,17%.
(Silvana Rocha, Marisa Castellani e Márcia Pinheiro)

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