Contrariando a expectativa do governo argentino, que apostava em uma segunda-feira de euforia nos mercados financeiros, prevaleceu ontem a desconfiança sobre as novas medidas econômicas anunciadas na sexta-feira passada e sobre o acordo acertado com o Fundo Monetário Internacional (FMI) no fim de semana.
O índice de risco-país (que mede a sobretaxa paga por uma nação ao tomar empréstimos em relação ao que pagam os Estados Unidos) fechou o dia em 1.049 pontos (sobretaxa de 10,49%), uma alta de 49 pontos em relação à sexta-feira.
A Bolsa de Buenos Aires terminou o dia em baixa de 3,06%. O mercado financeiro não recebeu bem os aumentos de impostos incluídos no novo pacote econômico.
As medidas, em conjunto com um corte de gastos públicos de US$ 900 milhões neste ano, visam cumprir a meta de déficit fiscal acertada com o FMI. Além disso, ainda não se conhecem os detalhes do acordo entre o governo argentino e o FMI, anunciado pelo ministro da Economia, Domingo Cavallo, anteontem.
O documento deve ratificar um perdão pelo estouro em US$ 1 bilhão da meta para o déficit do primeiro trimestre e a capacitação do país para receber os próximos desembolsos do Fundo previstos no pacote de ‘‘blindagem financeira’’ de quase US$ 40 bilhões, firmado em dezembro do ano passado.
‘‘O acordo com o FMI era considerado favas contadas pelo mercado, que não esperava que fosse necessário um ajuste tão duro, com aumento de impostos, para alcançá-lo’’, afirmou o economista Carlos Pérez, diretor-executivo da Fundação Capital. Segundo ele, o mercado espera ainda conhecer detalhes do acordo com o Fundo e da megatroca de títulos anunciada na quinta-feira pelo governo.
De acordo com o Ministério da Economia, a troca voluntária de títulos com vencimento até 2005 por outros de mais longo prazo poderia alcançar os US$ 20 bilhões e ser acertada nas próximas semanas.
Nas últimas duas semanas, rumores de que a Argentina estivesse na iminência de declarar uma moratória no pagamento de suas dívidas provocaram turbulências nos mercados financeiros, com uma forte subida no índice de risco-país, que chegou a um nível recorde no início da semana passada.
Para Pérez, passado o temor mais imediato de um ‘‘default’’ (calote), o mercado passou também a analisar as perspectivas econômicas de mais longo prazo, que não são favoráveis.
O país enfrenta uma forte recessão há dois anos e meio, agravada pela crise cambial brasileira que levou à desvalorização do real ante ao dólar no início de 1999.

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