Mercado orienta opção de plantio, diz produtor
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sábado, 19 de abril de 2008
José Maria Tomazela<br> Agência Estado 
Brasília - Ao fim de duas semanas ouvindo críticas generalizadas de europeus, de líderes do Fundo Monetário Internacional (FMI), do Banco Mundial e de movimentos sociais à produção de etanol, o governo Lula admite que foi surpreendido pela escalada do ataque, mas avalia que o Brasil está apanhando por tabela no ricochete de uma condenação aos Estados Unidos. Mapeando os cinco grupos de críticas básicas aos biocombustíveis, o governo concluiu que a maioria das objeções se aplica ao etanol de milho, genuíno produto americano.
O ponto alto dos ataques ocorreu no início deste mês, quando o relator especial das Nações Unidas para o Direito à Alimentação, o suíço Jean Ziegler, classificou os biocombustíveis de ''crime contra a humanidade'', pois utilizam terras que deveriam produzir comida. No Brasil, a produção de alimentos cresceu 6,8% na última safra, apesar do avanço do etanol.
Em Itapeva, interior de São Paulo, o produtor Djalma Possignolo Zambianco, de 45 anos, não concorda com a tese de que a produção de biocombustível é responsável pela redução na oferta de alimentos, como acusam representantes de países ricos. ''O que prejudica é a falta de uma política agrícola'', disse.
''O agricultor vai para onde o mercado o leva'', afirma ele retirando dos produtores a culpa pela redução na área de produção de alimentos.'' De uma família tradicional de agricultores imigrantes da Itália, Zambianco viu-se numa encruzilhada, há cinco anos. Depois de um longo ciclo de safras frustradas, sobretudo em decorrência dos baixos preços da soja, milho, feijão e trigo, seus principais produtos, ele recebeu uma proposta de arrendar as terras da Fazenda Santo Antonio do Pinhal para uma usina de cana-de-açúcar.
A idéia de transformar aquelas terras férteis e produtivas do Vale do Paranapanema em um grande canavial não agradava ao agricultor, mas ele não teve como resistir. ''Eu estava atolado em dívidas e, com a febre do etanol, a usina fez uma oferta muito boa.'' Com a concordância dos irmãos Adilson e Ari, seus sócios na propriedade, ele repassou 150 dos 200 hectares de terra própria para o plantio da cana.
Dezenas de agricultores da região, que é a maior produtora de grãos do estado de São Paulo, agiram da mesma forma. Na época, a área destinada à produção de grãos na região caiu cerca de 10%, embora o avanço da cana tivesse ocorrido principalmente sobre áreas de pastagens, de acordo com dados da Secretaria de Agricultura.
Para Zambianco, o dinheiro do arrendamento e a produção de cachaça num pequeno alambique montado na fazenda garantiram os recursos para evitar a quebra financeira. ''Na época, a cana foi a salvação da lavoura'', disse. De lá para cá, o processo se inverteu: os preços da cana caíram e a cotação dos grãos disparou. Ele lembra que vendeu milho a R$ 10 a saca, sendo que o preço atual é de R$ 22, e soja a R$ 20 - na sexta-feira estava a R$ 44. ''Hoje, os preços estão bons, mas, na época, não cobriam o custo de produção.''
No ano passado, ele iniciou o caminho de volta, substituindo a cana por grãos. Dos 150 hectares do arrendamento, foram renovados apenas 25 com a usina. Na área restante, foram plantados milho e soja. Outra área, de 72 hectares, sob pivô de irrigação, está reservada para o cultivo de feijão. Zambianco teve a oportunidade de desfazer um mito de que as terras usadas pela cana-de-açúcar perdem produtividade quando recebem outra cultura. ''A produção está sendo muito boa'', garantiu.
Na região, outros agricultores que tinham arrendado áreas para o plantio de cana, voltaram atrás, atraídos pelos bons preços dos grãos. O produtor cita ainda produtores que incluíram a cana no sistema de rotação de culturas. ''Quem deixava a terra descansar, agora faz um uso mais contínuo.''


