A manutenção pelo Conselho de Política Monetária (Copom) da taxa básica de juros da economia, a Selic, em 14,25% ao ano, não surpreendeu o mercado. A decisão foi tomada na noite da última quarta-feira, algumas horas depois de o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) ter revelado que a inflação de maio, medida pelo Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA), foi de 0,78%, a maior para o mês desde 2008. No acumulado de 12 meses, a inflação passou de 9,28%, em abril, para 9,32% no mês passado.
A Selic chegou a 14,25% ao ano na reunião do Copom do dia 29 de julho de 2015. E foi mantida nas seis reuniões subsequentes. Desde que foi anualizada, em janeiro de 1998, ela teve seu pico em 45% ao ano, em março de 1999, no governo Fernando Henrique Cardoso, e seu nível mais baixo, 7,25%, de outubro de 2012 a abril de 2013, na gestão Dilma Rousseff.
Pouca gente acredita em redução significativa de juros neste ano, até mesmo pelo fato de o novo presidente do Banco Central, Ilan Goldfajn, que tomou posse ontem, ter perfil ortodoxo. Entre as apostas do mercado, o Bradesco revisou sua projeção para a Selic no final do ano, de 12,25% para 12,75% ao ano. O corte, portanto, seria de apenas 1,5 ponto porcentual, distribuído nas quatro reuniões do Bacen que ainda vão ser realizadas até o final de 2016.
Há quem aposte, no entanto, que a taxa ficará acima de 13% na virada para 2017. "A inflação ainda mostra sua força. Não dá para ter uma queda consistente", afirma Marco Rambalducci, economista e consultor da Associação Comercial e Industrial de Londrina (Acil). Ele ressalta que a função "precípua" do Bacen é garantir o poder de compra da moeda. "Ele (Ilan) veio de maneira ortodoxa para manter essa lógica", declara.
Questionado se os juros estivessem em níveis razoáveis, a economia brasileira já teria mostrado sinais de recuperação, ele responde que não. "A economia funciona por expectativas. Se eu sei que o produto que vou fazer não vai vender no mês que vem, não vou produzi-lo agora", exemplifica. Ou seja, mais que juros altos, o problema da economia brasileira é de demanda e está relacionada com a indefinição política.

Cortes
Economista da Federação das Indústrias do Paraná (Fiep), Roberto Zurcher, diz que a Selic em 14,25% ao ano é "insustentável". Mas alega que o Banco Central só vai fazer cortes importantes na taxa quando o governo federal passar a gastar menos do que arrecada, decisão que não cabe à autoridade monetária. Para ele, o governo do presidente interino Michel Temer (PMDB) está demorando a mostrar medidas concretas de ajuste fiscal. "Esperava que isso acontecesse em dez dias de governo", conta.
A boa notícia, na opinião de Zurcher, é que a economia "parece" ter se descolado da política. Ele se refere ao fato de a revelação, no início da semana, do pedido de prisão da cúpula do partido do presidente (Renan Calheiros, Romero Jucá e José Sarney), não ter causado grande impacto nem na bolsa de valores, nem no câmbio.
A economista Tatiana Pinheiro, do Santander, está entre os especialistas que esperam o início do ciclo de corte de juros para agosto e vê uma taxa de 12,75% no final de 2016 e de 10% ao ano no fim de 2017. Para ela, o principal risco para que as previsões se concretizem é o comportamento da inflação nos próximos meses. "Se ficar nesse patamar de 9,3%, provavelmente as expectativas de inflação voltariam a subir, e isso seria um risco para o início do afrouxamento monetário." (Colaborou Folhapress)

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