As noções de mercado livre e de preços baseados em oferta e demanda foram importantes pilares das economias de muitos países, mas não colaboraram em nada para a grande preocupação mundial do século 21: a diminuição da pobreza. A análise, feita ontem pelo pesquisador inglês David Gordon, da Universidade de Bristol, foi o primeiro ponto de discussão do fórum mundial sobre medição da pobreza, que reúne especialistas de diversos países, na sede do IBGE, no Rio de Janeiro.
''Preços baseados no mercado tiveram consequências dramáticas para os pobres. O preço do combustível e dos alimentos, por exemplo, levou a poblemas sérios em muitos países'', disse Gordon, ontem, na abertura da quarta reunião do Grupo do Rio, formado em 1996 pela ONU para discutir as metodologias de medição da pobreza. Gordon citou também o capital especulativo como ''prejuízo para as economias''.
Há um consenso entre os participantes do fórum de, segundo o qual que revelou-se fracassada a teoria das últimas quatro décadas do século 20, que a redução da miséria seria uma consequência da expansão econômica. ''A maioria das agências das Nações Unidas e o FMI não tiveram sucesso em noções como a de crescimento econômico amplo. Há mais pobres hoje do que há 40 anos'', disse David Gordon.
O pesquisador apontou as políticas de bem estar e de inclusão social e a intervenção do Estado no mercado de trabalho como pontos fundamentais para um novo esforço de combate à fome e à miséria. Neste aspecto, ressaltou os avanços da União Européia em comparação com o resto do mundo. ''Há um abismo entre as políticas da União Européia e das agências das Nações Unidas'', afirmou.
Para Gordon, estabelecer uma renda mínima por pessoa por dia, como faz a ONU, ''por si só não dá para medir a pobreza''. Para as Nações Unidas, está abaixo da linha da pobreza a pessoa que vive com menos de US$ 1 por dia. No Brasil, o Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada, ligado ao Ministério do Planejamento, fixou a linha da pobreza em R$ 60 mensais, ou R$ 2 por dia. Por esta conta, há 23 milhões de indigentes no Brasil. Já a Fundação Getúlio Vargas faz contas diferenciadas por região e chega a considerar a linha da pobreza na faixa de R$ 80 mensais, o que eleva o número de miseráveis para 50 milhões de brasileiros.
''É melhor medir o padrão de vida do que o nível de consumo'', considera David Gordon. Para o pesquisador, uma renda razoável nos países pobres não pode ser a mesma para outras nações. ''Na América do Sul, seriam US$ 2, nos países em transição, US$ 4 e nos industrializados US$ 14'', disse Gordon, referindo-se a um mínimo necessário per capita para a vida fora da linha de pobreza.
Diretor da Divisão de Estatísticas e Projeções Econômicas da Cepal, da ONU, o mexicano Enrique Ordaz disse que o Chile e o Uruguai foram os países latino-americanos que mais avançaram na diminuição da pobreza, enquanto países como Brasil e México tiveram avanços menos significativos.

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