MERCADO GLOBAL - Uma guerra sem vencedores


Nelson BortolinReportagem Local
Nelson BortolinReportagem Local
MERCADO GLOBAL - Uma guerra sem vencedores




O mercado global tremeu quando os Estados Unidos anunciaram, no início de março, uma sobretaxa de 25% nas importações de aço. As promessas de campanha do presidente Donald Trump para proteger a indústria nacional começavam a tomar corpo. As tensões aumentam quando Trump ameaça estabelecer novas taxas específicas para a União Europeia. Mas nada assusta os mercados como a possibilidade de os Estados Unidos entrarem em guerra comercial com a China.
Se forem de fato implementadas as medidas protecionistas entre as duas maiores economias do planeta, os efeitos para o comércio internacional são imprevisíveis. "Não tenho como precisar quando foi a última vez que aconteceu algo do tipo. Desde 1950, o mundo vive um processo de integração comercial, movimento que se intensificou nos anos 1990 com a globalização", afirma o economista e professor da UFPR (Universidade Federal do Paraná), Alexandre Alves Porsse.

Segundo ele, em caso de guerra comercial entre os Estados Unidos e a China, em curto prazo, a economia brasileira e especificamente a do Paraná poderiam ser beneficiadas. "Como grande produtor de commodities agrícolas, o Estado pode se beneficiar, passando a vender mais para a China. Pode haver um efeito positivo para nossa economia a princípio", alega.

Mas a longo prazo, o conflito levará à redução da competitividade em escala global. "Quando um país protege algum setor de sua economia, a tendência é que esse setor queira aumentar suas margens, elevando seus preços, o que afeta todos os demais setores do país", conta. Essa elevação de custo se espalha entre as nações.

Já o presidente da AEB (Associação de Comércio Exterior do Brasil), José Augusto de Castro, não vê benefícios para ninguém, nem a curto prazo. "Na soja, por exemplo, o Brasil já exportou 40 milhões de toneladas (da safra 2017/18) e as 30 milhões de toneladas que ainda não foram embarcadas também já estão vendidas", declara. "Se fosse para ter algum benefício temporário, seria em 2019, mas a iminência de uma guerra comercial já fez baixar os preços da soja e das demais commodities", conta. A saca, que custava R$ 87,69 dia 7 de junho – preço de Paranaguá – chegou a R$ 83,80 na segunda-feira (25). Isso devido às ameaças da China de deixar de comprar a oleaginosa dos Estados Unidos.

"É a preliminar de uma guerra comercial. Os dois lados estão fazendo ameaças. Mas, eu acho que pode haver um acordo, que a guerra não aconteça porque ela é pior para os dois lados. E vai provocar retração do comércio em todo o mundo, prejudicando a todos", argumenta Castro.

Mas a decisão não deve levar em conta os países emergentes. "Estados Unidos, China e União Europeia juntos concentram 80% do comércio mundial. O que eles decidirem está decidido. Nós vamos assistir o que vai acontecer", afirma.
Para o economista da Fiep (Federação das Indústrias do Estado do Paraná), Roberto Zurcher, é hora do País olhar mais para o mercado interno. "Alguns setores, como o de madeira, já estão sentindo os efeitos desta guerra. Diante das barreiras que tendem em aumentar, devemos pensar em produzir mais aquilo que consumimos internamente", afirma. "É preciso começar a reindustrializar o País", complementa.

INDIVIDUALISMO
O presidente da Coopavel (Cooperativa Agroindustrial de Cascavel), Dilvo Grolli, diz que é cedo para avaliar os impactos de uma guerra comercial para o agronegócio brasileiro. "Temos de aguardar para ver como fica a compensação entre a queda dos valores das bolsas de mercadorias com ao prêmio que a China pagaria para comprar a soja do Brasil, em vez da americana."

Para Grolli, é preciso ter calma e esperar para ver se os dois países vão "ficar na rivalidade ou se vão encontrar um meio termo". "A princípio, percebemos que o mundo está mais individualista com o novo governo americano. Criou-se um novo conceito mundial de proteção", lamenta.

Independentemente da disputa entre China e Estados Unidos, Grolli lembra que o Brasil já vive um conflito com o gigante asiático na avicultura. Alegando que os produtores de frango brasileiros praticam dumping (venda com preços inferiores aos do mercado), desde o dia 9 de junho a China está cobrando uma taxa que vai de 18% a 38% na importação da proteína do Brasil.

PAPEL
Rui Brandt, presidente do Sinpacel (Sindicato da Indústria de Papel e Celulose do Paraná), diz que o setor que ele representa não teme a guerra comercial entre norte-americanos e chineses. "No nosso caso,as relações com Estados Unidos e China não têm um vínculo, não tem um compromisso brasileiro de vender para um lado ou para outro."

Da mesma força, o presidente do Sima ( Sindicato das Indústrias de Móveis de Arapongas), Irineu Munhoz, não vê motivos para preocupação. "Pelo menos a princípio, não há o que temer."

Como você avalia o conteúdo que acabou ler?

Pouco satisfeito
Satisfeito
Muito satisfeito

Tudo sobre:

Últimas notícias

Continue lendo