Esperança

São Paulo- Apesar de o presidente dos EUA, Barack Obama, ter enfatizado em seu primeiro discurso a escolha da ''esperança sobre o medo'' para enfrentar a recessão, foram os temores relacionados à saúde do setor bancário norte-americano e europeu que predominaram ontem nos mercados. As bolsas tiveram fortes quedas na Ásia, Europa, Estados Unidos e Brasil.

Foco

O foco das preocupações foi uma companhia de administração de ativos de pequeno porte dos EUA, a State Street, que informou a órgãos reguladores perdas bilionárias e queda de 71% no lucro do quarto trimestre. A notícia derrubou as ações do Bank of America, JPMorgan e Citigroup. O agressivo novo resgate do Tesouro inglês aos bancos do Reino Unido, o rebaixamento do rating da Espanha pela Standard & Poor's e a previsão da União Europeia de que a zona do euro terá contração de 1,9% este ano também pesaram negativamente.

Dólar

Os investidores buscaram proteção no dólar, que subiu no mercado de moedas e em relação ao real. Os títulos do Tesouro norte-americano também se beneficiaram do aumento da aversão ao risco. E no mercado de juros a queda de 1 ponto porcentual do Nuci, após a perda de mais de 654 mil empregos no País em dezembro, induziu novas baixas dos juros futuros na véspera de decisão do
Copom.

Temores

A posse de Barack Obama na presidência dos Estados Unidos foi apenas figurativa para os mercados acionários. Os temores com a saúde do setor financeiro fizeram os índices amargarem perdas generalizadas ao redor do globo, e também na Bovespa, que, pela primeira vez em janeiro, passou a acumular perdas no mês. O Ibovespa terminou a sessão na mínima, em baixa de 4,01%, aos 37.272,07 pontos. Na máxima, atingiu 39.174 pontos (+0,89%). No mês, a Bovespa acumula recuo de 0,74% - até ontem, era um ganho de 3,40%. O giro financeiro, de novo, foi baixo e somou R$ 2,866 bilhões.

Fôlego

As ações da Vale e Petrobras vinham contendo as perdas no mercado doméstico, mas não sustentaram o fôlego e, na última hora da sessão, com a piora das bolsas nos Estados Unidos, caíram fortemente com os investidores estrangeiros desovando ordens de vendas. Com isso, o Ibovespa foi renovando as mínimas. Segundo um operador, os bancos também não podem ser esquecidos, já que espelharam durante todo o dia o segmento no exterior.


Demissões

Segunda-feira, por exemplo, o Caged anunciou o fechamento de quase 660 mil vagas formais por causa da crise. Foi o pior resultado mensal da série histórica do Ministério do Trabalho. E as demissões continuam a ser anunciadas pelas empresas. Ontem, para se tomar um exemplo, a Sadia confirmou que demitirá 350 funcionários que ocupam cargos administrativos em unidades localizadas em diversos Estados do País.

Ponto alto

O ponto alto do dia, a posse de Obama, não fez preço nos ativos, apesar de o discurso dele ter sido considerado bom. ''Hoje eu digo a vocês que os desafios que enfrentamos são reais. Eles são sérios e são muitos. Eles não serão enfrentados de maneira fácil ou em curto tempo. Mas saibam disso, América - eles serão enfrentados'', disse Obama ao acrescentar que a crise econômica pede ''ação, ousadia e rapidez''. Segundo George Sanders, a fala foi positiva, mas agora as atenções vão se voltar à prática.

Em bloco

No Brasil, os bancos caíram em bloco, depois de terem subido na véspera. Bradesco PN, -5,28%, Itaú PN, -6,83%, Unibanco unit, -6,37%, e Banco do Brasil ON, -6,86%. Mas o destaque doméstico foram as ações da Aracruz, com a notícia de que a Votorantim Celulose e Papel (VCP) comprou 28% do capital votante da maior produtora mundial de celulose de eucalipto. Os papéis PNB da Aracruz lideraram o número de negócios do Ibovespa, superando inclusive as negociações com Petrobras PN e Vale PNA.


Juros

A recente fileira de indicadores ruins da economia foi ontem ampliada pelos números da CNI de novembro, favorecendo uma nova rodada de queda dos juros futuros na BM&F, nesta véspera de decisão do Copom. Segue firme no mercado a ideia de que a atividade enfraquecida exigirá pulso firme do Banco Central na Selic. Segundo cálculo de operadores, a precificação de corte da taxa básica em janeiro na curva situa-se em torno de 0,8 ponto porcentual, sinalizando que os agentes majoritariamente continuam apostando em queda de 0,75 ponto para a Selic, mas também consideram viável a redução de 1 ponto porcentual, para 12,75%.

Copom

O Copom tomará sua decisão após vários de seus pares já terem afrouxado fortemente os juros, inclusive a Turquia, na quinta-feira, que até então sustentava a maior taxa do mundo. E, como lembrou um trader, na maioria das vezes os cortes efetivados vieram acima do esperado pelo mercado. Hoje, o Banco Central do Canadá reduziu a taxa básica de juro em 0,50 ponto porcentual, para 1,00%, a mais baixa de sua história, e sinalizou estar preparado para mais cortes para combater a recessão.

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