MERCADO FINANCEIRO
Imbróglio
A semana terminou, mas o imbróglio da aprovação do pacote de socorro aos bancos proposto pelo Executivo nos EUA não. O mercado seguiu ontem refém de declarações desencontradas de parlamentares sobre a negociação, que poderá ser estendida pelo final de semana para evitar um adiamento do recesso previsto para deputados e senadores a partir da semana que vem. A presidente da Câmara, Nancy Pelosi, afirmou que não será possível aprovar o texto, que originalmente previa ajuda de US$ 700 bilhões para recompra de dívida podre, sem o apoio dos republicanos e que até mesmo alguns democratas ainda não estão de acordo com a proposta.
Bolsas
As bolsas americanas passaram boa parte do dia de ontem no vermelho, mas os investidores se apegaram na esperança de alguma solução nos próximos dias e os índices acabaram migrando para o azul. No Brasil, o suspense com o pacote norte-americano também afetou os ativos locais, que, adicionalmente, reagiram à divulgação dos prejuízos da Sadia e Aracruz com operações no mercado de derivativos. O dólar avançou 1,76% ontem, mas registrou perda de 4,14% na semana. A Bovespa recuou 2,02% e, na semana, teve perdas de 4,28%. Descolados da tensão nos demais segmentos, os juros futuros cederam, diante da expectativa de que os efeitos produzidos pela crise já estão presentes na economia brasileira e exigirão abrandamento na política monetária doméstica.
Câmbio
A combinação do clima de aversão a risco no exterior, em meio a incertezas sobre a aprovação do plano de socorro aos bancos nos Estados Unidos, e as notícias sobre perdas registradas por algumas empresas brasileiras em aplicações cambiais sustentou a valorização do dólar frente ao real ontem, que encerrou acima de R$ 1,85. Na semana, a divisa acumula perda de 4,14%, no mês de setembro ganho de 13,64% e no ano (+4,21%). No balcão, a cotação terminou a R$ 1,8530, em alta de 1,76%, após oscilar de R$ 1,84 a R$ 1,8660. Na roda da BM&F, o pronto também subiu, 1,76%, a R$ 1,8520, de R$ 1,84 na mínima e R$ 1,871 na máxima. De acordo com informações do mercado, o giro interbancário somava US$ 2,391 bilhões, sendo US$ 1,881 bilhão em D+2, às 16h40.
Dramático
No mercado futuro, os cinco vencimentos de contratos indexados ao dólar mostraram apreciação, totalizando US$ 17,29 bilhões até as 17h32. Entre os mais negociados, outubro/2008 projetava R$ 1,854, com elevação de 1,71% e giro de US$ 14,594 bilhões; e novembro/2008 indicava R$ 1,866, com alta de 1,75% e US$ 2,542 bilhões. A ''certeza'' sobre a aprovação do pacote do governo norte-americano para ajudar o setor bancário dos EUA dissipou-se ontem, depois que a disputa entre os principais líderes políticos dos EUA congelou um acordo sobre o plano ontem à noite, após um dia dramático de negociações no Capitólio que parecia prometer um acordo.
Direção certa
No início da tarde de ontem, a porta-voz da Casa Branca, Dana Perino, informou que as negociações para o pacote de resgate do setor financeiro caminham na direção certa e podem ser concluídas até segunda-feira. ''Vamos continuar trabalhando nisso e não temos nenhuma razão para acreditar que não conseguiremos concluir isso até segunda-feira'', disse. Isso até ajudou o índice Dow Jones a passar para o azul, que subia mais de 1% perto do fechamento. No início da noite, no entanto, a presidente da Câmara Nancy Pelosi (Democrata), afirmou que não é possível aprovar pacote sem apoio dos republicanos. Segundo ela, alguns deputados democrata ainda não manifestaram apoio ao pacote.
Sadia
Mas a alta do dólar ontem frente ao real reflete também um fator doméstico: as perdas financeiras de algumas empresas relacionadas a instrumentos de derivativos cambiais. A Sadia informou, em fato relevante, que teve perdas de R$ 760 milhões ao tentar liquidar antecipadamente operações financeiras no mercado de câmbio. A Aracruz, por sua vez, informou que a exposição da empresa a derivativos foi ''fortemente influenciada'' pela recente valorização das cotações do dólar. A companhia não informou o valor de mercado das perdas, mas comunicou que ela pode ter excedido os limites previstos na política financeira da empresa.
Produto
De acordo com participantes do mercado, essas perdas estariam relacionadas a um produto disponibilizado por alguns bancos, que oferecia crédito a determinado porcentual de CDI, mas com uma cláusula de câmbio, que deixaria a empresa vendida em dólar se a cotação ultrapassasse certo preço. Segundo uma dessas fontes, várias companhias teriam aproveitado esse ''produto'', especialmente porque o porcentual do CDI oferecido seria menor do que a taxa que vinha sendo cobrada no mercado e porque, até pouco tempo atrás, poucos eram os analistas que consideravam a cotação do dólar nesse nível. A última Pesquisa Focus do Banco Central, por exemplo, ainda prevê uma taxa para o dólar de R$ 1,63 no final de 2008, com a previsão para o câmbio médio em R$ 1,65.
Agência Estado





