Pressão
São Paulo- Os mercados financeiros operaram sob forte pressão ontem, recrudescidas as incertezas em relação à proposta de US$ 700 bilhões do governo americano para recompra de dívida podre dos bancos. A urgência na aprovação do pacote pelo Congresso -os parlamentares entram em recesso nos EUA na próxima semana - foi defendida ontem pelo presidente do Federal Reserve, Ben Bernanke, e do secretário do Tesouro, Henry Paulson, em depoimentos no Comitê de Bancos do Senado, dados os riscos que a crise de liquidez representa para a economia.

Bovespa
Mas o mercado teme que as discussões no Congresso envolvendo o projeto, por sua complexidade e magnitude, não sejam concluídas em tempo hábil. Além disso, há analistas já alertando que o plano não será potente o suficiente para aplacar os problemas no setor de crédito. Com isso, as bolsas tiveram mais um dia de perdas - a Bovespa voltou a ficar abaixo de 50 mil pontos, com queda de 3,78%, afetada também pela baixa vista nas cotações das principais commodities. O dólar teve forte valorização ante o real e também subiu ante o euro.


Bolsa
A crise que envergonhou os Estados Unidos, nas palavras do secretário do Tesouro, Henry Paulson, continuou colecionando vítimas no mercado financeiro ontem. As bolsas seguiram a trilha negativa, apesar dos depoimentos de Paulson e do presidente do Fed, Ben Bernanke, no Congresso para defender a aprovação do socorro bilionário ao sistema financeiro norte-americano. A Bovespa, que sofreu com a queda lá fora, ainda sentiu o impacto do tombo das commodities. O Ibovespa perdeu 3,78%, aos 49.593,17 pontos, depois de oscilar entre a mínima de 49.289 pontos (-4,37%) e a máxima de 51.856 pontos (+0,61%).


Atenções
As atenções de ontem estavam totalmente voltadas para os depoimentos de Bernanke e Paulson, no Congresso, onde eles se revezaram em pedir que os parlamentares aprovem rapidamente a ajuda de US$ 700 bilhões proposta no final de semana. Segundo Paulson, é preciso passar rapidamente o texto, sem atrasos com cláusulas que ''não estão relacionadas ou que não tenham amplo apoio''. Ele ainda apoiou uma 'forte supervisão' para o plano do governo dos EUA, que é justamente um dos pontos defendidos pelos congressistas, e afirmou que a crise em Wall Street é uma ''vergonha'' para os EUA.


Mea-culpa
Apesar do mea-culpa, nem tudo saiu como previsto nos depoimentos, já que os analistas consideraram as declarações um pouco pessimistas, principalmente quando Bernanke instou os congressistas a aprovarem logo o pacote alegando que a economia dos EUA e seus mercados financeiros enfrentarão sérios riscos caso isso não ocorra. Para Bernanke, a ação é necessária para estabilizar os mercados, de modo a minimizar os efeitos sobre a economia.


Turbulência
Uma das críticas foi a analista Meredith Whitney, da gestora Oppenheimer & Co, para quem a turbulência está tão severa que seus efeitos negativos sobre a economia podem não ser enfraquecidos pelo plano de resgate. Ou seja, mesmo se passar no Congresso, o plano pode ter seus efeitos minimizados sobre o mundo real. ''O que começou no verão passado (Hemisfério Norte) se acelerou e intensificou tanto que nós acreditamos que qualquer plano de resgate do governo tem pouca esperança de melhorar os fundamentos essenciais no curto e médio prazos'', disse ela.


Plano
A grande questão, segundo ela, é se o plano irá interromper o declínio dos preços de moradias. A analista da Oppenheimer acredita que não. ''Os preços de moradias não estão perto do piso e acreditamos que eles ficarão ao menos 25% mais baixos que o valor de hoje'', disse ela. Ontem, a Agência Federal de Financiamento Habitacional informou que, em julho, os preços das moradias nos EUA caíram 0,6% ante junho a julho, atingindo o menor nível desde outubro de 2005. Em 12 meses encerrados em julho, o índice recuou 5,3%, mesmo porcentual de queda registrado desde que os preços de moradias atingiram o pico, em abril de 2007.


Menos pessimista
Menos pessimista, o analista para Estados Unidos da Ideaglobal, Josh Stiles, crê que o plano de ajuda do governo norte-americano deverá estancar parte da crise no país e evitará a quebra de ''grandes nomes'' do sistema financeiro, embora ressalte que o pior não passou para o setor real da economia. Em entrevista ao AE Broadcast Ao Vivo, ele admitiu que há um certo ceticismo em relação à ajuda, uma vez que ''muitas das pessoas que estão tentando construir um plano para salvar o país da pior crise desde a Depressão são as mesmas que estavam falando no último verão que a economia estava sólida


Otimista
Também ao AE Broadcast ao Vivo, e bem mais otimista, o economista-chefe do WestLB, Roberto Padovani, acredita que o socorro tem força para romper a crise de confiança no país. Apesar da desconfiança dos investidores, ele avaliou, em entrevista ao AE Broadcast ao Vivo, que tão logo se saiba melhor os detalhes do pacote e o plano for aprovado pelo Congresso, o humor dos mercados deve voltar à normalidade.

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