Calma aparente
As duas últimas semanas foram marcadas por uma aparente calma dos investidores estrangeiros com os rumos da política econômica brasileira a partir de janeiro de 2007. Assustados logo após o segundo turno da eleição com a ofensiva dos defensores dentro do governo do ''fim da era Palocci'', os agentes do mercado externos se acomodaram com os sinais de manutenção dos pilares da estabilidade econômica dados pelo presidente reeleito Luiz Inácio Lula da Silva.

Cenários externos
Um fator importante para essa trégua foi o ambiente positivo que dominou os mercados externos durante boa parte deste início de novembro. Mas seria um equívoco se confundir o atual compasso de espera dos investidores com uma aposta tranquila na continuidade de um sentimento positivo em relação ao Brasil.

Sinais e rumores
Os sinais e rumores que orbitam em torno da montagem da política econômica e da pressão da ala desenvolvimentista do governo são monitorados atentamente pelos mercados e ganharão crescente importância nas próximas semanas com a aproximação do final do ano.


Política econômica
Notícias que indiquem a manutenção de uma política monetária independente e/ou um ajuste fiscal ancorado no corte de gastos e implementação de reformas terão um impacto positivo. Por outro lado, sinais de uma política para os juros menos conservadora e uma manutenção da estratégia fiscal terão o potencial de ter um efeito negativo sobre os ativos brasileiros.

Preocupação
Nos últimos dias, por exemplo, os investidores têm manifestado preocupação com os boatos de que o secretário do Tesouro, Carlos Kawall, estaria insatisfeito no cargo - fato negado por ele na sexta-feira - e o noticiário sobre possíveis mudanças na Lei de Responsabilidade Fiscal.


Monitorando
''Não há indiferença com os rumos do segundo mandato de Lula, todo mundo está monitorando'', disse à Agência Estado o estrategista do fundo de investimentos Threadneedle, Henry Stipp. ''Os investidores se acalmaram com a postura do Lula logo depois da eleição, que jogou um balde de água fria nos desenvolvimentistas, mas agora é preciso ver o que será feito de concreto na economia.''

Troca-troca
Segundo Stipp, uma possível troca de alguns diretores do Banco Central seria vista com naturalidade desde que os novos nomes não indiquem uma mudança na atual linha da política monetária. ''Nos últimos anos o BC, lutando contra boa parte do governo, conquistou credibilidade junto aos mercados ao mostrar que não é suscetível a pressões políticas e isso se reflete nas expectativas inflacionárias baixas'', disse. ''Qualquer ameaça à ação do BC teria um impacto negativo imediato nos mercados.''

Fazenda
Stipp observou que o comando do ministério da Fazenda também será crucial. ''É praticamente unanimidade nos mercados a avaliação de que o Brasil precisa fazer um ajuste fiscal o quanto antes e o ministro da Fazenda terá que ser o comandante dessa operação'', disse.

Declarações
Gene Frieda, estrategista-chefe para mercados emergentes do Royal Bank of Scotland, disse que o presidente Lula, apesar de ter dado garantias de que entende a importância da autonomia informal do BC, não tem sido totalmente ortodoxo em sua declarações em relação às mudanças na diretoria da instituição. O analista observou que é do conhecimento geral dos mercados que o Diretor de Política Econômica do BC, Afonso Bevilaqua vai se demitir no final deste ano por razões pessoais.

Bevilaqua
Mas, segundo analista, ''para o mercado será difícil ver Bevilaqua sair'' pois ele é considerado o líder dos membros ortodoxos da diretoria do BC, entre eles o diretor de política monetária, Rodrigo Azevedo, de estudos econômicos, Mário Mesquita e de assuntos internacionais, Paulo Vieira da Cunha. ''Embora esse grupo parece suficientemente forte para conter os membros menos ortodoxos da diretoria, o balanço do poder poderia mudar dependendo de quem Meirelles - ou Lula - escolha para o cargo de Bevilaqua'', disse Frieda.

Câmbio e bolsa
O dólar comercial subiu pela segunda sessão consecutiva ontem, e atingiu R$ 2,17, seguindo a tendência de valorização da moeda no mercado internacional. O leilão de compra de dólares do Banco Central e o declínio da Bolsa de Valores de São Paulo também contribuíram para que a moeda norte-americana subisse 0,84% no dia. A Bolsa de Valores de São Paulo recuava quase um por cento no fim da tarde, de olho no declínio dos preços de commodities.

Inflação
As projeções do mercado financeiro para a inflação deste ano medida pelo IPCA subiram de 3% para 3,05% em pesquisa semanal do Banco Central divulgada ontem. Essa foi a terceira elevação consecutiva destas estimativas, que estavam em 3% há quatro semanas. Apesar da alta, as previsões de IPCA para o ano seguem abaixo da meta central de 4,50% fixada pelo Conselho Monetário Nacional (CMN), no regime de metas de inflação perseguido pelo BC.


Juros
As projeções do mercado financeiro para a taxa de juros neste mês continuaram estáveis em 13,25% ao ano. O porcentual embute uma expectativa de que o Comitê de Política Monetária (Copom) venha a cortar os juros em mais 0,50 ponto porcentual na reunião dos dias 28 e 29. Para o fim de 2007, as previsões de taxa de juros continuaram estáveis em 12% ao ano pela segunda semana consecutiva. Há quatro semanas, estas previsões estavam em 12,50% ao ano.

Com agências Estado e Folhapress

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