A cotação do dólar deve recuar nos próximos três meses e ficar próxima de R$ 1,60. Ainda não se imagina que a desvalorização fuja do controle, como ocorreu no México, em 1994, quando o peso perdeu mais de 80% de seu valor. Segundo economistas, analistas financeiros e ex-ministros, o mais provável é que o câmbio fique, nos próximos meses, abaixo do valor de fechamento da sexta-feira, de R$ 1,72.
Para sete dos entrevistados, a cotação deve ficar, no máximo, em R$ 1,60 por US$ 1,00, o que representa uma desvalorização de cerca de 24% em relação ao patamar anterior à flutuação do câmbio. Quatro especialistas acreditam que a moeda fique acima da barreira de R$ 1,60 e a aposta mais alta é de que a cotação atinja R$ 1,80. Todas as previsões estão cercadas de dúvidas. Qualquer deslize na tentativa do governo em equilibrar suas contas e a volta da turbulência no mercado financeiro internacional poderia jogar as previsões mais otimistas por terra.
‘‘O ponto de equilíbrio da moeda está por volta de R$ 1,60, mas para chegar lá ainda deve haver mais desvalorização e todas as previsões estão muito sujeitas a chuvas e trovoadas’’, diz o ex-ministro Marcílio Marques Moreira. ‘‘A cotação do real vai depender de uma combinação da política econômica do governo, do comportamento do Congresso e do cenário externo’’, diz o economista Octavio de Barros.
As estimativas dos especialistas mostram, porém, que, apesar de todo o nervosismo, ainda não se espera uma crise como a que enfrentaram a Tailândia ou a Rússia. ‘‘Os outros países foram pegos de surpresa’’, diz Carlos Janada, do Morgan Stanley Dean Witter. ‘‘As empresas brasileiras tiveram tempo para se proteger’’.
‘‘A taxa de equilíbrio do câmbio deverá ser encontrada em semanas’’, acredita Dalton Gardiman, economista do Deutsche Bank. Mesmo se a desvalorização não fugir do controle, o Brasil ainda amargará um ano difícil. Os juros provavelmente continuarão altos a curto prazo para conter a especulação com a moeda. ‘‘O País vai ficar mais pobre’’, diz o economista Odair Abate. ‘‘Deve haver uma retração entre 2,5% e 3,0% do PIB’’, acrescenta.
A recessão deverá ajudar a evitar uma disparada nos preços. Segundo os especialistas, o efeito da desvalorização cambial na taxa de inflação deste ano será pequeno. Antônio Corrêa de Lacerda, presidente do Conselho Federal de Economia, diz que o grande desafio para o Brasil é a retomada do crescimento econômico. ‘‘Acho que a inflação não vai ser problema’’. Para ele, o grande benefício da mudança do regime cambial é a possibilidade da redução da taxa de juros e da retomada do crescimento econômico.
Stephen Rose, diretor da UBB Capital Markets, de Londres, uma empresa do Grupo Unibanco, acredita que a inflação ficará em torno de 5% por causa da determinação do governo de concluir o ajuste fiscal no primeiro semestre. ‘‘A aprovação da contribuição previdenciária dos inativos da União foi a vitória mais importante do governo no Congresso desde 1994. Os investidores estrangeiros estão confiantes no sucesso do governo nas próximas votações’’, disse.
Rose acha que o impacto da desvalorização do real em relação ao dólar terá pouco impacto na inflação porque o país tem uma baixa taxa de importações (cerca de 6%) em relação ao PIB. A única preocupação de Rose diz respeito aos preços do petróleo e derivados. O aumento desses preços tem efeito inflacionário em todas as fases do processo de produção. ‘‘Os riscos de inflação são muito limitados numa economia em recessão’’, afirma.

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