Mercado fica instável por algumas semanas
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domingo, 24 de janeiro de 1999
Agência Folha 
A cotação do dólar deve recuar nos próximos três meses e ficar próxima de R$ 1,60. Ainda não se imagina que a desvalorização fuja do controle, como ocorreu no México, em 1994, quando o peso perdeu mais de 80% de seu valor. Segundo economistas, analistas financeiros e ex-ministros, o mais provável é que o câmbio fique, nos próximos meses, abaixo do valor de fechamento da sexta-feira, de R$ 1,72.
Para sete dos entrevistados, a cotação deve ficar, no máximo, em R$ 1,60 por US$ 1,00, o que representa uma desvalorização de cerca de 24% em relação ao patamar anterior à flutuação do câmbio. Quatro especialistas acreditam que a moeda fique acima da barreira de R$ 1,60 e a aposta mais alta é de que a cotação atinja R$ 1,80. Todas as previsões estão cercadas de dúvidas. Qualquer deslize na tentativa do governo em equilibrar suas contas e a volta da turbulência no mercado financeiro internacional poderia jogar as previsões mais otimistas por terra.
O ponto de equilíbrio da moeda está por volta de R$ 1,60, mas para chegar lá ainda deve haver mais desvalorização e todas as previsões estão muito sujeitas a chuvas e trovoadas, diz o ex-ministro Marcílio Marques Moreira. A cotação do real vai depender de uma combinação da política econômica do governo, do comportamento do Congresso e do cenário externo, diz o economista Octavio de Barros.
As estimativas dos especialistas mostram, porém, que, apesar de todo o nervosismo, ainda não se espera uma crise como a que enfrentaram a Tailândia ou a Rússia. Os outros países foram pegos de surpresa, diz Carlos Janada, do Morgan Stanley Dean Witter. As empresas brasileiras tiveram tempo para se proteger.
A taxa de equilíbrio do câmbio deverá ser encontrada em semanas, acredita Dalton Gardiman, economista do Deutsche Bank. Mesmo se a desvalorização não fugir do controle, o Brasil ainda amargará um ano difícil. Os juros provavelmente continuarão altos a curto prazo para conter a especulação com a moeda. O País vai ficar mais pobre, diz o economista Odair Abate. Deve haver uma retração entre 2,5% e 3,0% do PIB, acrescenta.
A recessão deverá ajudar a evitar uma disparada nos preços. Segundo os especialistas, o efeito da desvalorização cambial na taxa de inflação deste ano será pequeno. Antônio Corrêa de Lacerda, presidente do Conselho Federal de Economia, diz que o grande desafio para o Brasil é a retomada do crescimento econômico. Acho que a inflação não vai ser problema. Para ele, o grande benefício da mudança do regime cambial é a possibilidade da redução da taxa de juros e da retomada do crescimento econômico.
Stephen Rose, diretor da UBB Capital Markets, de Londres, uma empresa do Grupo Unibanco, acredita que a inflação ficará em torno de 5% por causa da determinação do governo de concluir o ajuste fiscal no primeiro semestre. A aprovação da contribuição previdenciária dos inativos da União foi a vitória mais importante do governo no Congresso desde 1994. Os investidores estrangeiros estão confiantes no sucesso do governo nas próximas votações, disse.
Rose acha que o impacto da desvalorização do real em relação ao dólar terá pouco impacto na inflação porque o país tem uma baixa taxa de importações (cerca de 6%) em relação ao PIB. A única preocupação de Rose diz respeito aos preços do petróleo e derivados. O aumento desses preços tem efeito inflacionário em todas as fases do processo de produção. Os riscos de inflação são muito limitados numa economia em recessão, afirma.


