Agência Folha
De São Paulo
O dólar comercial, que chegou a bater em R$ 2,003 no mês passado, recuou para R$ 1,921 ao fim da última semana. Para o mercado, a tendência é que a moeda continue caindo e chegue a um patamar de R$ 1,85. O grande desafio, porém, será atravessar dezembro. O próximo mês reserva a maior concentração de vencimentos de dívidas de empresas brasileiras (os chamados eurobonds) no exterior em mais de um ano.
São R$ 1,364 bilhão em dívidas contraídas fora do país. Para honrar os compromissos, as empresas irão procurar moeda norte-americana no mercado, pressionando a cotação. A maioria das operações deve ser antecipada para o início do mês, para evitar uma concentração burocrática às vésperas dos feriados do final de ano.
A expectativa de uma retirada preventiva de dinheiro, por causa da possibilidade de problemas com o bug do milênio, pode tirar um pouco da liquidez do mercado. Além disso, dezembro reserva o tradicional fechamento de balanços. Para fechar as contas em dólares, é possível que algumas companhias comprem moeda.
Até a semana passada, um cenário assim tenderia a provocar alta expressiva do dólar. Agora, porém, o Banco Central, graças a uma revisão de acordo com o FMI, ampliou seu poder de fogo para intervenções em até US$ 2 bilhões. O cenário, então, indica que o dólar tenderá a ter um repique em dezembro, para voltar a cair, de forma mais consistente, a partir de janeiro. As previsões são que a moeda feche o ano cotada a R$ 1,90 e atinja o patamar de R$ 1,85 em 2000.
‘‘Dezembro é um mês um pouco complicado, mas a tendência é que a valorização do real seja mantida. A longo prazo, a perspectiva é de uma moeda na casa de R$ 1,85. O segredo é saber como será a trajetória’’, disse Rubens Sardenberg, economista-chefe do ABN-Amro Bank. Para ele, qualquer previsão tem que levar em conta o fato de que o câmbio é uma área extremamente sensível. ‘‘Se acontecer qualquer coisa no âmbito político ou no cenário externo, os efeitos para o dólar são imediatos.’’
Para o economista Marcelo Guterman, da Lloyds Asset Management, o mercado ainda está buscando um consenso em torno de uma base para o dólar. ‘‘O governo conseguiu se desvencilhar da armadilha do dólar a R$ 2,00. A moeda, agora, deve ter um patamar entre R$ 1,85 e R$ 1,90’’, afirmou. Mas advertiu: ‘‘Se houver uma deterioração de expectativas, não há BC que dê jeito.’’
Para a diretora comercial da Renova Corretora de Câmbio, Miriam Tavares, é preciso esperar o fim de dezembro para fazer qualquer previsão. ‘‘O dólar deve encontrar uma resistência natural em R$ 1,90, quando acontecerá uma pressão de quem tem posição estabelecida na moeda’’, disse. Para ela, esse deve ser o valor na virada do ano.
‘‘Depois, ainda não dá para dizer, pois está muito longe’’, afirmou, para depois completar: ‘‘O certo é que há menos compromissos externos no ano que vem, a dívida pública está sendo alongada e os investidores devem voltar ao país depois da virada do ano’’.
A expectativa em relação ao dólar pode ter um papel decisivo. Saber a melhor hora para fechar um contrato de exportação ou para entrar ou sair de um fundo cambial pode ser a diferença entre ganhar e perder dinheiro. ‘‘O mercado espera conseguir enxergar um preço para o dólar, deixando as grandes oscilações de lado. A expectativa é que o preço seja em torno de R$ 1,85, mas a queda deve se dar de um em um centavo’’, disse Luiz Abdo, da corretora Souza Barros.
Há um certo consenso no mercado de que o BC conseguirá manter o dólar sem grandes oscilações, graças à sua capacidade de intervenção. Mas, por exemplo, uma simples subida de juros nos EUA pode detonar uma fuga de capitais do Brasil (com os investidores correndo para os títulos do Tesouro norte-americano).
Mas, a curto prazo, uma reviravolta externa não é esperada. ‘‘As ‘notícias ruins’ parecem já ter passado. A eleição na Argentina ocorreu sem transtornos, os Estados Unidos continuam crescendo sem inflação. Tudo está dentro de um contexto otimista’’, afirmou Herbert Soares, da Finambrás.
Se dezembro tende a trazer uma certa turbulência, a partir de janeiro a expectativa é que o otimismo melhore. Recuo na taxa de juros, inflação sob controle, crescimento da atividade e melhora na balança comercial são algumas das probabilidades apontadas por analistas. ‘‘As exportações estão melhorando, não só em volume, mas também com a valorização dos preços de commodities’’, acredita Gabriel Jafet, da Oryx Asset Management.

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