Londrina - No noticiário econômico da semana, o dólar foi o assunto de destaque. Balizadora de negócios no mundo todo, a moeda atingiu na última quarta-feira, no Brasil, a maior cotação desde 25 de outubro de 2004, chegando a R$ 2,87. Anteontem, o dólar já tinha caído para valores próximos a R$ 2,83. Mesmo assim, acumula alta de quase 19% desde 14 de fevereiro de 2014, quando foi cotada a R$ 2,38.
A explicação para a valorização do dólar no Brasil vai além do que acontece apenas na economia nacional. As oscilações são influenciadas também pela percepção dos investidores internacionais sobre o melhor lugar para injetar seus recursos.
A professora do departamento de Economia da Universidade Estadual de Londrina (UEL), Maria de Fátima Sales, explica que em um sistema de economia aberta – como o nosso -, o que acontece em um país acaba refletindo nos outros. "Por isso, os investidores, ao decidirem aplicar recursos em um país, observam a taxa de juros e os sinais da economia", diz.
A atual conjuntura econômica mundial remonta aos Estados Unidos que, após a crise econômica em 2008, estão em franca recuperação motivada pela adoção de políticas de juros próximos de zero e injeção de recursos que ajudaram a conter o desemprego e fizeram a economia crescer.
Carlos Alberto Ercolin, professor de Finanças da ISAE/FGV, acrescenta que o aumento dos juros é atrativo para os investidores, que aguardam ansiosos o prometido aumento nas taxas norte-americanas. "É só uma questão de tempo", acredita, ressaltando a tendência dos recursos migrarem para os EUA, influenciando o câmbio no Brasil.
Maria de Fátima lembra que a economia americana cresceu 2,5% em 2014, com cumprimento das metas estabelecidas pelo governo. "O investidor está vendo o cenário de recuperação nos EUA", diz. Ao mesmo tempo, a atual conjuntura econômica do Brasil afugenta investimentos. A projeção é que não haja crescimento do PIB em 2015. A meta da inflação, que é de 4,5% (com possibilidade de chegar a 6,5%), deve ultrapassar 7,15%, conforme expectativas do mercado. O Ministério da Fazenda, por sua vez, reduziu de 1,5% para 1,2% a meta do superávit primário, que é a meta de economia feita pelo governo nas próprias contas. "O mercado aposta em 1% e entende que o governo não está tendo habilidade de promover ajustes", diz.
Segundo Ercolin, diante destas conjunturas desfavoráveis, os investidores antecipam problemas futuros e retiram seus recursos do país, desvalorizando a moeda local em relação a dólar. Com a desvalorização do real, produtos fabricados a partir de matérias-primas importadas tendem a ficar mais caras, impactando no orçamento das famílias. Outra preocupação é que, para manter os investimentos no Brasil, o Banco Central aumente as taxas de juros, elevando ainda mais a inflação. "O primeiro semestre deste ano será de muita volatilidade", avisa.
Maria de Fátima destaca que a valorização do dólar favorece os setores que exportam, mas prejudica todos aqueles que dependem de importações, principalmente para compra de matéria-prima e outros insumos. "O custo aumenta e as empresas, para sobreviverem, precisam reduzir a margem de lucro ou aumentar preços, o que não é viável em situação de crescimento zero".
Por isso, ela enfatiza que o momento é de prudência. "As empresas devem racionalizar os custos, pois qualquer economia interna é importante. O ideal é promover ajustes de custo, reduzir gastos supérfluos e investir em modernização", orienta.
Aos consumidores, Ercolin recomenda cautela. "Não é hora de se endividar, comprar imóveis ou carros financiados ou trocar de emprego. O ideal é comprar apenas o que pode ser pago à vista, sem contrair dívidas", diz.

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