Mercado desafia BC e vence. Dólar decola
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quinta-feira, 05 de julho de 2001
Agência Estado De São Paulo 
Em dia tenso, o mercado de câmbio entrou ontem em forte queda-de-braço com o Banco Central, em reação negativa ao anúncio feito pelo diretor de Política Monetária, Luiz Fernando Figueiredo, de que a autoridade monetária dispõe de US$ 6 bilhões ou cerca de US$ 50 milhões/dia para irrigar o mercado até o fim do ano, de forma linear. A entrevista foi considerada catastrófica pelos profissionais de mesas de câmbio e teve um efeito pior sobre o mercado do que a disparada do risco país da Argentina para 1.165 pontos, que é considerado um patamar de default (calote).
Para o mercado, o BC mostrou que tem pouca munição para segurar a escalada do dólar e também perdeu margem de manobra e liberdade para novas intervenções pontuais. Em consequência, o dólar comercial fechou no preço máximo do dia, com alta de 1,98%, vendido a R$ 2,47, maior cotação desde 19 de junho passado, quando atingiu o pico do Plano Real. Neste mês, a moeda norte-americana já contabiliza ganho de 6,83% frente ao real e, em 2001, +26,60%.
Os profissionais de mesas de câmbio entenderam que o BC deu um passo atrás ontem em relação às medidas anunciadas por Armínio Fraga em 21 de junho. Isso porque a autoridade monetária teria concluído que não havia bolha especulativa e sim demanda real por dólar. Por isso, teria voltado atrás, afirmaram. A atitude vacilante do BC também provocou uma onda de boatos sobre a saída de Armínio Fraga da presidência do BC.
Para o mercado, teria sido melhor se o BC, em vez de fazer o anúncio e vender ontem pequenos lotes, tivesse atuado pesado ofertando moeda ou título cambial. Um experiente operador de uma corretora calculou que havia demanda ontem para cerca de US$ 600 milhões e que com US$ 1 bilhão o BC poderia ter derrubado as cotações.
Desde que anunciou medidas para irrigar o mercado, em 21 de junho, o BC fez cinco intervenções no câmbio, vendendo 4 milhões de papéis cambiais mais cerca de US$ 1,030 bilhão, considerando estimativas de que a oferta da última terça-feira tenha sido de cerca de US$ 100 milhões e a de ontem de US$ 50 milhões.
Como a crise Argentina tende a continuar amedrontando o mercado brasileiro, por causa da percepção de que é grande o risco de desvalorização cambial e de o país vizinho não conseguir honrar seus compromissos financeiros nem fiscais, a expectativa é que a procura por hedge cambial persista.(leia mais sobre a crise argentina na página 3).
No mercado de juros, tudo piorou. As projeções de juros subiram à lua e tem gente achando que ainda pode ser pouco. O mercado está todo posicionado esperando um forte tranco nos juros a qualquer momento, por achar que o Banco Central não conseguiu deter a escalada do dólar. Esses US$ 6 bilhões, o mercado tira de letra, comentou um operador. Ninguém está vendendo. Falta dólar e ponto. No encerramento dos negócios ontem, a projeção de juros do contrato de DI futuro para 1º de outubro, o mais negociado, apontou taxa de 24,25%, ante 22,73% do fechamento de anteontem. O DI agosto projeta agora 22,20%, ante 20,44% de anteontem. O DI janeiro projeta 25,72%, ante 24,16% do fechamento anterior. O DI a termo de um ano fechou o dia com projeção de 26,00%, ante 24,85% do último fechamento. Pelo segundo dia consecutivo, o Índice Bovespa operou abaixo dos 14 mil pontos nesta quinta-feira, fechando com queda de 0,06%.
(Silvana Rocha, Mário Rocha e Marisa Castellani)


